Desmistificando mitos sobre a profilaxia pré-exposição ao HIV

Por muitos anos, acompanhei de perto as inquietações e as dúvidas que pairam sobre a profilaxia pré-exposição ao HIV, a popular PrEP. Ao conversar e atender pacientes, noto como ainda existem barreiras construídas por mitos antigos ou por informações distorcidas. Resolvi abordar esse tema porque sei que uma informação clara é ferramenta poderosa para transformar a relação das pessoas com a prevenção.

Por que falar sobre mitos da PrEP?

Muitos acreditam saber o suficiente sobre o assunto, mas em meu consultório, noto o contrário. Recebo perguntas recorrentes (“PrEP pode fazer mal à saúde?”, “Traz efeitos colaterais permanentes?”, “É só para um grupo específico?”) e percebo angústias motivadas mais por receios do que por fatos. A desinformação fortalece o preconceito e afasta quem poderia se beneficiar do acompanhamento correto.

Recentemente, vi amigos e pacientes relatarem histórias de superação de medos ao buscar a PrEP. Todos mencionaram como ouvir explicações objetivas e fundamentadas mudou a perspectiva que tinham, fazendo com que se sentissem mais seguros para tomar decisões sobre a própria saúde.

Decidi reunir aqui os mitos mais populares e trazer evidências, dados nacionais e internacionais, além de exemplos práticos que vejo na minha rotina profissional.

O que é a PrEP e como ela funciona?

Antes de desfazer mitos, acredito ser útil explicar de maneira direta o que é a PrEP. Ela consiste em uma combinação de medicamentos antirretrovirais, que impedem que o HIV se estabeleça e se espalhe no organismo. Sua indicação é para pessoas com maior risco de exposição ao vírus, mas há detalhes que merecem nossa atenção.

A PrEP age no organismo antes que o HIV tenha a chance de causar a infecção.

Isso significa que ela é uma forma profundamente eficaz de prevenção para quem a utiliza conforme orientações médicas.

Principais mitos sobre a PrEP: o que ouço com mais frequência

Durante minhas consultas, há padrões nas dúvidas e, principalmente, nos medos invisíveis. Compartilho aqui as falas mais comuns e esclareço cada tópico:

  • Mito 1: “PrEP é só para homens gays.”
  • Mito 2: “Quem usa PrEP pode ter efeitos colaterais sérios e irreversíveis.”
  • Mito 3: “PrEP substitui a camisinha completamente.”
  • Mito 4: “PrEP incentiva o sexo sem proteção e comportamentos de risco.”
  • Mito 5: “Quem usa PrEP tem risco de infecção aumentado por outras doenças.”
  • Mito 6: “Se esquecer de tomar um comprimido, já não protege mais.”
  • Mito 7: “A PrEP faz mal para os rins ou fígado.”
  • Mito 8: “Tomar PrEP engorda ou muda o corpo.”
  • Mito 9: “Só quem faz sexo frequente precisa usar.”

Vou detalhar cada um desses pontos, trazendo o que, de fato, a ciência mostra e o que vejo dia após dia em prática clínica.

Quem pode usar a PrEP?

Vejo muita confusão sobre o público-alvo da PrEP. No início, sim, a comunicação era mais focada em homens que fazem sexo com homens, por serem uma das populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV. No entanto, essa estratégia mudou. Hoje, o foco é ampliar o acesso e contemplar todas as populações sob risco, como destacado nesta lista de grupos elegíveis para PrEP.

Mulheres cis, homens cis, pessoas trans ou não binárias: todos podem acessar PrEP se estiverem em situação de risco para HIV.

Mesmo assim, dados do Ministério da Saúde de 2025 revelam que só 8,8% dos usuários da PrEP no Brasil são mulheres, enquanto elas representam 30% dos novos diagnósticos de HIV. Eu percebo que grande parte dessa disparidade vem da crença equivocada de que PrEP “não é para mulheres”. Precisamos enfrentar esse mito.

Outra dúvida comum: “Adolescentes podem usar PrEP?” Sim, desde que sigam o protocolo médico e demonstrem risco real de exposição.

PrEP faz mal? E os efeitos colaterais?

O medo dos efeitos colaterais é universal. Já atendi pessoas preocupadas se iriam adoecer ou sofrer danos graves caso seguissem com a prevenção.

Os medicamentos da PrEP possuem um perfil de segurança bastante conhecido, amplamente estudado internacionalmente. Os efeitos colaterais mais frequentes são temporários: leve desconforto gastrointestinal, dor de cabeça ou enjoo nos primeiros dias do uso. Poucos mantêm sintomas persistentes.

Embalagem de comprimidos da PrEP e diferentes frascos de medicamentos sobre mesa clínica

Casos graves? Não costumo observar. Mas, claro, o acompanhamento médico analisa função renal e hepática, por precaução.

  • Início do tratamento: pode causar leve desconforto digestivo, que tende a passar nos primeiros dias.
  • Avaliação periódica dos rins e fígado: prática obrigatória e segura, geralmente sem danos em adultos saudáveis.
  • Raramente, pode haver aumento discreto de creatinina (exame dos rins), quase sempre reversível.

Há quem me pergunte se “PrEP faz engordar”. Estudos não demonstraram aumento significativo de peso ligado ao uso dos antirretrovirais na PrEP. Mudanças corporais merecem uma investigação mais ampla, já que fatores hormonais, alimentares e emocionais influenciam o corpo.

O monitoramento faz parte do processo justamente para detectar qualquer alteração precoce, permitindo suportar o usuário de maneira segura e tranquila.

Interações medicamentosas: posso usar PrEP com outros remédios?

Muitas pessoas não iniciam a PrEP por temer que ela “não combina” com outros tratamentos – especialmente antidepressivos, anticoncepcionais ou hormônios para afirmação de gênero. Os medicamentos da PrEP (tenofovir e entricitabina) têm baixo potencial de interação com a maioria dos remédios de uso comum.

Mas, sempre reforço, informar ao médico todos os tratamentos em uso é fundamental. Só assim, posso avaliar riscos e segurança.

  • Anticoncepcionais: PrEP não afeta o efeito dos contraceptivos hormonais em pílulas, implantes ou DIUs.
  • Hormônios feminilizantes/masculinizantes: a literatura confirma que não há alteração significativa nem na ação hormonal, nem na eficácia da PrEP.
  • Antidepressivos e ansiolíticos: baixíssimo risco de interação medicamentosa relevante.
  • Antibióticos, analgésicos e outros remédios comuns: a maioria pode ser utilizada junto, sem impacto relevante sobre os rins ou fígado.

O maior cuidado é com doenças renais crônicas. Nestes casos, avalio exames antes e, se preciso, adoto outra estratégia.

PrEP substitui camisinha?

Essa é uma das questões que mais recebo. A PrEP é uma ferramenta específica para prevenção exclusivamente contra o HIV. Outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia ou HPV, não são evitadas pelo uso da PrEP.

Em minha trajetória, sempre oriento: O uso da PrEP não dispensa o preservativo, mas pode ser um aliado importante para quem encontra dificuldades reais em manter o uso constante da camisinha.

Em casos de relações casuais ou múltiplos parceiros, usar PrEP mais preservativo é a abordagem mais ampla e segura. Se há episódios de sexo sem proteção, a PrEP reduz substancialmente o risco de HIV, mas não aborda as demais ISTs.

PrEP incentiva comportamentos de risco?

Outro mito muito comum é que quem faz uso da PrEP “passa a transar sem proteção” porque se sente protegido. Perguntas deste tipo são frequentes, e minha experiência revela uma realidade diversa.

O acesso ao acompanhamento permite que pessoas se sintam acolhidas, orientadas e tenham espaço para discutir dúvidas, vontades e angústias. A PrEP não muda, por si só, comportamentos de risco; o acompanhamento especializado incentiva práticas sexuais mais seguras, auto-observação do corpo e realização regular de exames.

Medo e culpa não protegem contra HIV. Informação e acolhimento, sim.

E se esquecer de tomar o remédio?

É bastante comum esquecer uma dose ou não seguir o horário certinho todos os dias.

O ideal é tomar a medicação diariamente, no mesmo horário. Caso esqueça uma dose, tomo como base minha experiência clínica para tranquilizar: se o esquecimento é pontual, a proteção permanece. Esquecimentos frequentes, sim, podem reduzir a eficácia, principalmente em situações de alto risco.

Existem outras estratégias, como a PrEP sob demanda, indicada para casos bem específicos, com orientação médica e adequada avaliação do perfil de risco sexual.

O uso da PrEP causa dependência?

Já ouvi pessoas preocupadas se “PrEP vicia”. Não existe nenhum componente na PrEP que cause dependência física ou psicológica.

Ela pode ser interrompida a qualquer momento, desde que com a devida avaliação médica e, sempre que possível, após avaliação do contexto de risco.

Algumas situações indicam a necessidade de utilização temporária da PrEP, como viagens prolongadas, início de uma nova relação afetiva sexual, ou mudança de rotina que envolva mais risco. Nessas situações, discutir com o profissional de saúde é fundamental para decidir iniciar, manter ou parar a medicação.

Por quanto tempo posso fazer uso da PrEP?

Essa dúvida surge principalmente de quem inicia PrEP pensando em usá-la “por um periodo curto” ou “sem prazo para parar”. A resposta é simples: o uso deve durar enquanto houver risco de exposição ao HIV.

Se a pessoa entra em um relacionamento monogâmico com testagem negativa de ambos os parceiros, pode optar por interromper a profilaxia com segurança. Quando retoma práticas de risco, pode iniciar novamente a estratégia.

PrEP não é compromissso para a vida toda: é autocuidado enquanto houver necessidade.

PrEP faz mal aos rins ou fígado?

Entender riscos reais é fundamental para desmontar o medo. A PrEP usa medicação que é, de fato, eliminada pelos rins, então pessoas com insuficiência renal (doença renal moderada ou avançada) normalmente não são elegíveis para essa abordagem.

Profissional de saúde colhendo exame de sangue para monitorar PrEP

Por isso, durante o acompanhamento, peço exames de sangue regularmente. Vejo que, em adultos saudáveis, a incidência de alteração renal significativa é rara, como já foi confirmado em pesquisas globais.

Pessoas com histórico de doença renal ou que usam outras medicações que afetam os rins precisam de protocolo diferente. A avaliação médica personalizada é o melhor caminho.

No fígado, os riscos são ainda menores, raramente esse órgão é afetado de forma importante por quem utiliza a PrEP somente como profilaxia (sem infecção pelo HIV).

Uso, acesso e dados da PrEP no Brasil

Os números dos últimos anos mostram uma tendência de crescimento significativo na busca por PrEP.

Segundo levantamento do Ministério da Saúde, o uso regular da PrEP no país cresceu 28,1% entre 2024 e 2025. Foram 141.891 unidades dispensadas no ano, frente a 110.733 no ano anterior. Mas o desafio da adesão continua. Também houve ampliação dos tratamentos descontinuados, sugerindo que dúvidas, medos ou dificuldades práticas ainda impedem a manutenção da estratégia.

O Brasil dobrou o número de usuários de PrEP em menos de dois anos, mostrando uma mudança real de comportamento e política pública.

O total de usuários de PrEP chegou a mais de 100 mil pessoas em 2024. O Painel PrEP do Ministério da Saúde traz atualizações frequentes sobre o tema, promovendo transparência sobre distribuição, perfil dos usuários e regiões de maior acesso.

Esses dados, em minha visão, apontam como informação de qualidade amplia o acesso. Quando pessoas entendem que a PrEP é para elas, buscam o serviço. Quando o medo é menor do que o desejo de autocuidado, novas histórias de superação ganham espaço.

PrEP, PEP e outras estratégias de prevenção

Não posso deixar de mencionar que PrEP é uma estratégia importante, mas não é a única. Para situações pontuais de risco, existe a PEP, ou profilaxia pós-exposição, que utiliza antirretrovirais logo após uma possível exposição ao vírus HIV. Ela também tem protocolos e prazos muito bem estabelecidos e é indicada em situações emergenciais.

Para quem quiser saber mais sobre as abordagens disponíveis, há uma seção completa sobre profilaxia pré-exposição e um resumo dos serviços relacionados à PrEP na rede de saúde especializada.

Resultados reais: o que vemos após tantos anos de PrEP?

Lembro de cada relato de pacientes que chegaram ao consultório cheios de dúvidas, medo de julgamento ou preocupados com efeitos colaterais. Muitos expressaram vergonha, por acreditar que buscar prevenção era admitir comportamentos “errados”. Pouco tempo depois de iniciar o acompanhamento, relataram alívio; passaram a se sentir mais livres, menos ansiosos, mais dispostos a olhar para o próprio corpo com carinho.

O acesso à PrEP transformou a prevenção em uma escolha consciente e informada, não mais baseada em culpa, mas em responsabilidade afetiva e autocuidado.

Paciente em consulta médica sobre PrEP com clínico especialista

O impacto mais positivo foi observado em quem, uma vez informado, se sentiu mais forte para decidir a própria rotina sexual e buscar outros cuidados de saúde associados. O efeito colateral mais comum? Informação e liberdade.

Conclusão

Ao longo desses anos, compreendi que os maiores obstáculos ao acesso à PrEP são o medo, o preconceito e a desinformação. A ciência já validou amplamente a eficácia, a segurança e o impacto da PrEP na prevenção do HIV. Os riscos existem, como em qualquer medicação, mas são monitorados de perto por equipes treinadas e capacitados para oferecer suporte total ao usuário.

Quanto mais quebramos mitos, mais ampliamos o acesso à prevenção e mais contribuímos para um futuro com menos HIV, menos preconceito e mais saúde e acolhimento para todas as pessoas, independentemente de gênero, orientação sexual, raça ou classe social. Confiança começa com a informação correta, e minha experiência mostra que esse é sempre o melhor caminho.

Perguntas frequentes sobre PrEP (FAQ)

O que é a PrEP para HIV?

A PrEP é uma estratégia preventiva que consiste no uso diário de medicamentos antes da exposição ao vírus HIV, reduzindo drasticamente o risco de infecção. Ela é indicada para pessoas que têm risco aumentado de se expor ao vírus em situações do cotidiano, como em relações sexuais sem preservativo ou com múltiplos parceiros.

Como funciona a PrEP contra o HIV?

A PrEP age impedindo que o HIV se estabeleça no organismo mesmo após o contato com o vírus durante a relação sexual, tornando a infecção muito menos provável. Os remédios atuam bloqueando a replicação do vírus, mas seu uso requer regularidade e acompanhamento médico para manter a eficácia.

A PrEP causa efeitos colaterais?

Os efeitos colaterais da PrEP são, na maioria das vezes, leves e passageiros, como desconforto gástrico, enjoo ou dor de cabeça nos primeiros dias. Acompanhar a saúde dos rins e do fígado é rotina, mas raramente são necessárias intervenções por efeitos graves.

Quem pode tomar a PrEP?

Qualquer pessoa que tenha risco elevado de infecção pelo HIV pode ser elegível para uso da PrEP, incluindo homens, mulheres cis, pessoas trans ou não binárias. Grupos prioritários são definidos conforme exposição ao risco, não por identidade de gênero ou orientação sexual. Adolescentes também podem usar, mediante avaliação médica detalhada. Consulte mais em quem pode usar a PrEP.

Onde conseguir PrEP gratuitamente?

No Brasil, a PrEP está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em diversas unidades de saúde especializadas em todo o território nacional. Para consultar pontos de distribuição, orienta-se buscar informações na rede local de saúde, com profissionais que atuam em infecções sexualmente transmissíveis ou através de serviços de referência.