O risco de infecção pelo HIV ainda representa um desafio relevante na saúde pública brasileira e mundial. Em minhas experiências diárias, percebo que a discussão sobre vulnerabilidades e riscos na PrEP é uma ferramenta poderosa para promover escolhas mais seguras, informadas e livres de preconceitos. Acompanhar pacientes na avaliação de risco se tornou parte integral do cuidado, exigindo não só conhecimento técnico, mas também empatia e comunicação franca.
Neste artigo, compartilho o que aprendi e vivenciei sobre como analisar o risco, mapear vulnerabilidades e construir estratégias personalizadas centradas na pessoa para fortalecer a prevenção com PrEP.
PrEP: O que é e qual o papel na prevenção do HIV?
Na rotina clínica e nos debates sobre saúde sexual, frequentemente me perguntam o que é PrEP e se serve para todos. Explico sempre que:
PrEP é um medicamento que, quando tomado corretamente, reduz significativamente o risco de contrair o HIV.
PrEP significa profilaxia pré-exposição e consiste no uso de antirretrovirais por pessoas que não vivem com HIV, mas que são expostas a situações de risco aumentado. Ela pode ser utilizada de modo contínuo ou sob demanda, conforme o contexto individual de exposição, como abordo com detalhes ao orientar quem busca informações sobre a PrEP sob demanda.
Esse método, que passa por criteriosa avaliação profissional, permite traçar um plano individualizado para evitar a infecção. Desde 2017, testemunho a ampliação do acesso à PrEP em diferentes grupos, parte fundamental de uma resposta coordenada à epidemia do HIV. Dados recentes indicam que o Brasil já ultrapassou 104 mil usuários de PrEP em 2024, refletindo avanços no compromisso pela prevenção (informações atualizadas do Ministério da Saúde).
Entendendo risco e vulnerabilidade: Muito além de rótulos
Quando falo de risco, as pessoas muitas vezes pensam apenas em matemática: qual a chance de pegar HIV nesta ou naquela situação? Só que a questão é muito mais complexa. O risco nunca é apenas individual, ele é construído social, cultural e afetivamente. Cada história é única e exige uma escuta atenta, sem julgamentos.
No dia a dia, observo que fatores como práticas sexuais, frequência de novas parcerias, uso (ou não) de preservativo e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) influenciam a exposição ao HIV. Mas elementos socioeconômicos e contextos de violência, discriminação, gênero e raça impactam diretamente na tomada de decisão e no acesso à informação e aos serviços.
Principais fatores que aumentam a vulnerabilidade ao HIV
-
Parcerias sexuais múltiplas e não uso regular do preservativo
-
Uso de drogas ou álcool que reduz o autocuidado durante relações
-
Histórico prévio de ISTs
-
Contextos de violência sexual
-
Discriminação de gênero, orientação sexual, raça e classe social
-
Dificuldade de negociar práticas seguras com parceiros
-
Barreiras ao acesso à testagem ou ao acompanhamento em saúde
Esses fatores não acontecem isoladamente. Em muitos casos, se sobrepõem e se reforçam. Refletir sobre vulnerabilidades não é apontar falhas, mas sim ajudar cada pessoa a reconhecer espaços de cuidado e proteção.
A abordagem centrada na pessoa no cuidado com PrEP
Costumo dizer que avaliar risco é também um convite ao autoconhecimento. Para mim, a escuta ativa é a porta de entrada para identificar fragilidades e construir confiança.
Adotar uma abordagem centrada na pessoa significa escutar o que o paciente traz, suas dúvidas, seu modo de ver risco e desejo por proteção. Evito julgamentos. Explico que não existe “alto” ou “baixo” risco universal – tudo depende do contexto.
A prática me ensinou que o diálogo aberto sobre sexualidade, inclusive sobre medos, conquistas, expectativas e até culpas, é capaz de transformar o cuidado. Segundo pesquisa recente com jovens vivendo com HIV, a disponibilidade da PrEP e o conhecimento sobre carga viral indetectável têm possibilitado relações afetivas e sexuais com menos medo e mais autoestima – mesmo que desafios ligados ao estigma persistam, gerando conflitos internos e no cotidiano.
Como pratico escuta ativa na avaliação de risco?
-
Permito que cada pessoa conte sua trajetória, sem pressa e respeitando seus limites
-
Faço perguntas abertas e sem preconceitos sobre práticas sexuais, sentimentos e experiências
-
Evito usar termos técnicos quando não são necessários, tornando o diálogo acessível
-
Ofereço informações atualizadas e claras sobre a profilaxia pré-exposição
-
Convido o paciente a refletir sobre suas escolhas sem impor regras. Assim, promovemos autonomia
-
Junto, adaptamos o plano de prevenção conforme as mudanças da vida: um novo relacionamento, viagens, períodos de maior ou menor exposição
Cada consulta é um espaço para negociar estratégias que façam sentido, minimizando riscos sem desrespeitar a realidade de quem busca proteção.
Práticas sexuais e contextos sociais: Mapear diferenças para calibrar o cuidado
No processo de avaliar risco, sempre pergunto sobre as práticas sexuais, porque elas realmente determinam diferentes níveis de exposição ao HIV e a outras ISTs.
Discuto abertamente as formas de relação sexual – sexo anal, vaginal, oral – e os fatores que estão em jogo, como o uso de preservativo, posição sexual, presença de lesões e número de parceiros. Também levo em consideração contextos como festas, apps de relacionamento, sexo em locais públicos e situações em que o uso de álcool ou drogas pode estar presente.
Fatores que alteram o risco em práticas sexuais
-
Uso consistente de preservativos reduz significativamente a exposição ao HIV.
-
Sexo anal receptivo sem proteção é um dos comportamentos de maior risco.
-
Presença de feridas ou ISTs aumenta a chance de transmissão.
-
Compartilhamento de brinquedos sexuais não higienizados também pode ser uma via de transmissão.
-
Sexo com parceiros cujo status sorológico desconhecido merece atenção especial.
Além da técnica, preciso sempre considerar o contexto social e afetivo: existe violência envolvida? Medo de rejeição? Relações de poder desiguais? Todos esses elementos fazem parte da análise. É por isso que defendo que não há fórmulas prontas: a prevenção combinada é construída junto com cada pessoa, considerando seus desejos e sua história.
O caminho para identificar quem se beneficia da PrEP
Existe um perfil certo para iniciar a PrEP? A resposta é: depende. Na minha experiência, recomenda-se avaliar:
-
Quem mantém relações sexuais sem preservativo com pessoas vivendo com HIV e que não estão em tratamento ou não sabem a carga viral.
-
Pessoas com parceiros múltiplos, especialmente se houve episódio recente de IST.
-
Pessoas que sofrem violência sexual.
-
Pessoas que já utilizaram a PEP (profilaxia pós-exposição) mais de uma vez no ano.
-
Usuários de drogas injetáveis que compartilham equipamentos.
O foco sempre está em analisar vulnerabilidades atuais; decisões não devem ser tomadas por estereótipos, mas pelo encontro de necessidades reais. No Brasil, esforços para ampliar o acesso à PrEP incluem iniciativas em parceria com organizações comunitárias, mostrando-se também mais eficientes em alcançar adolescentes em situações de vulnerabilidade social, conforme dados comparativos com serviços convencionais.
Sinais de alerta: Quando considerar avaliação imediata para PrEP?
-
Mudança recente de comportamento sexual, com aumento do número de parceiros
-
Antecedente de IST diagnosticada nos últimos seis meses
-
Episódios esporádicos de uso de preservativo (por exemplo, “às vezes uso, às vezes não”)
-
Situação de vulnerabilidade social ou emocional, dificultando o autocuidado
Conduzir essa construção implica propor, não impor. Cada pessoa é responsável por seu cuidado, mas precisa ter suporte para fazer escolhas seguras.
Estratégias para adesão à PrEP: Superando desafios reais
Um dos grandes aprendizados que carrego é que iniciar a PrEP é apenas começo de um caminho. Manter adesão exige acompanhamento contínuo, leveza e abertura para lidar com medos, mitos e dificuldades cotidianas.
Compartilho as estratégias que costumo negociar na consulta para favorecer a adesão:
-
Definir horários e rotinas fixas para tomar o medicamento, criando lembretes no celular, apps ou usando caixinhas organizadoras
-
Dialogar sobre reações adversas mais comuns, explicando que geralmente são leves e passageiras
-
Estimular a identificação de aliados, como amigos de confiança ou parceiros, que possam apoiar no processo
-
Esclarecer dúvidas sobre a PrEP sob demanda para quem não tem exposição frequente, detalhando vantagens e limitações (leia mais sobre PrEP sob demanda)
-
Reforçar a importância do acompanhamento regular, realização de exames e consultas para garantir segurança no uso da medicação
Vejo que quanto mais aberto e livre de julgamento é o diálogo, maior a taxa de adesão sustentada, diminuindo riscos e promovendo saúde integral.
Promoção do diálogo livre de preconceitos: O cuidado que transforma
Falando francamente, sei que para muitos, a maior barreira ao acesso não é técnica, mas social. O preconceito, tanto nas instituições de saúde como entre familiares e círculos sociais, afasta pessoas da prevenção e impede o debate franco sobre sexualidade.
Conversar sem medo é o primeiro passo para o cuidado real e sustentável.
Tenho visto que criar um ambiente livre de julgamentos não apenas melhora os desfechos, mas também fortalece vínculos e autonomia. Famílias, escolas, serviços de saúde, todos têm papel ativo nesse processo; fortalecer a escuta e incentivar perguntas são formas de enfrentar tabus e proteger vidas.
Como promover esse diálogo na prática?
-
Validando relatos de quem busca orientação, sem culpabilização pelo desejo, pelo prazer ou pelo erro
-
Comprometendo-se a ouvir mais e julgar menos, tornando cada atendimento mais humano
-
Investindo em formação continuada sobre diversidade sexual e direitos humanos, como defendido pelo Sumário Executivo de 2025
-
Fortalecendo redes de apoio que ofereçam acompanhamento além da consulta clínica
Risco, vulnerabilidade e protagonismo: Agir em conjunto
Uma mensagem-chave de minha prática é reforçar que o objetivo nunca é criar regras, mas ampliar o olhar sobre a prevenção. Não se trata de medir o risco de alguém de forma isolada, mas sim de construir estratégias personalizadas para promover saúde, respeito e autonomia.
Afinal, risco e vulnerabilidade são conceitos dinâmicos. Mudam conforme as relações, experiências e ciclos da vida. Só com uma abordagem humanizada, centrada na escuta sem preconceito e na valorização da pessoa, é possível realmente fazer diferença na prevenção do HIV.
Conclusão
Ao olhar para a trajetória da PrEP no Brasil, vejo um movimento que já impactou a vida de milhares e ainda tem muito a avançar. Avaliar riscos e vulnerabilidades exige, fundamentalmente, olhar para o outro com respeito e disposição para ouvir. Só assim, com diálogo aberto, espaços de acolhimento e oferta facilitada de informações e serviços, podemos transformar números frios em histórias de vida.
Em cada consulta, percebo que prevenção é, sobretudo, processo compartilhado. E, para que seja efetiva, a PrEP deve ser parte de uma estratégia maior: aquela que coloca a pessoa no centro, respeita as diferenças e acolhe singularidades.
Perguntas frequentes sobre avaliação de risco e vulnerabilidade na PrEP
O que é avaliação de risco na PrEP?
A avaliação de risco na PrEP é um processo feito com acompanhamento profissional para identificar situações do dia a dia que aumentam a chance de exposição ao HIV. Envolve conversar sobre práticas sexuais, ambientes sociais, uso de preservativo, presença de ISTs, contextos de vulnerabilidade emocional e social, para então decidir se a PrEP é indicada e qual a estratégia mais segura.
Como identificar vulnerabilidades ao usar PrEP?
Identificar vulnerabilidades consiste em olhar para além dos comportamentos de risco, considerando questões como discriminação, dificuldade de acesso aos serviços, violência, estigma e barreiras na negociação do cuidado com parceiros. Uma escuta ativa durante as consultas possibilita reconhecer esses pontos, adaptar as orientações e criar um plano de prevenção alinhado à vida da pessoa.
Como saber se preciso usar PrEP?
Se você teve relações sexuais sem preservativo, múltiplos parceiros, histórico recente de ISTs, ou já usou a PEP (profilaxia pós-exposição) mais de uma vez no ano, pode se beneficiar com a PrEP. O ideal é conversar com um profissional preparado, de preferência especializado em infecções sexually transmissíveis, para avaliar suas situações cotidianas e encontrar a estratégia de prevenção mais adequada. Para saber quem pode usar a PrEP, confira as recomendações detalhadas em quem pode usar a PrEP.
Quais são os maiores riscos na PrEP?
Os maiores riscos ao usar PrEP acontecem quando não há acompanhamento médico, uso irregular da medicação ou falta de exames periódicos para detectar ISTs, reações adversas ou possível contaminação pelo HIV. É fundamental manter consultas regulares e seguir as orientações recebidas, pois o acompanhamento reduz possíveis falhas de proteção e garante maior segurança.
Onde buscar orientação sobre PrEP?
A orientação sobre PrEP pode ser obtida em serviços especializados em infecções sexualmente transmissíveis, ambulatórios de infectologia, centros de testagem e aconselhamento e também em projetos que trabalham prevenção combinada. Para conhecer opções, acesse informações sobre profilaxia pré-exposição e expanda seu conhecimento em recursos confiáveis como a seção de profilaxia pré-exposição no site. O importante é confiar e buscar espaços onde possa tirar dúvidas com respeito.





