PrEP e teste para outras ISTs: importância da triagem contínua

Se tem algo que mudou de forma radical o cenário da prevenção ao HIV nos últimos anos foi a chegada da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Eu, que acompanho de perto tanto avanços científicos quanto questões cotidianas sobre sexualidade e saúde, percebo um movimento interessante: muita gente se sente mais segura, mais livre e se permite viver a sexualidade com menos culpa. No entanto, há um ponto que sempre gosto de abordar com clareza: mesmo com a PrEP, o cuidado com outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) deve ser constante.

Ao longo deste artigo, quero compartilhar minha visão, experiências e o que vejo na prática clínica. Vou explicar, de forma objetiva e personalizada, por que a testagem regular para ISTs é tão relevante, especialmente para quem faz uso da PrEP. E não se trata apenas de diagnóstico rápido e tratamento precoce, mas de conquistar uma saúde sexual plena e informada. Se essa dúvida já passou pela sua cabeça, convido você a seguir lendo.

Afinal, o que é a PrEP?

Eu percebo, frequentemente, perguntas do tipo: “O que exatamente é essa PrEP que tanto falam?”

A PrEP é uma estratégia de prevenção contra o HIV feita para pessoas que não vivem com o vírus. O uso é feito com medicamentos específicos, tomados antes de eventuais exposições ao risco, geralmente em um regime diário, com acompanhamento de um profissional de saúde. O objetivo é reduzir, de maneira expressiva, a chance de infecção caso haja contato com o vírus.

Para quem quer saber mais detalhes sobre quem são os candidatos ideais à PrEP, recomendo a leitura do conteúdo sobre quem pode usar a PrEP. Há nuances importantes que precisam ser consideradas para indicar esse tipo de prevenção.

A PrEP protege do HIV, mas não de outras ISTs.

O cenário atual das ISTs: por que se preocupar?

Quando olho para os relatórios e dados recentes, noto padrões de preocupação. Segundo uma matéria da Faculdade de Medicina da UFMG, adolescentes e jovens adultos são grandes responsáveis pelo aumento nas taxas de ISTs no Brasil—especialmente sífilis, que concentra maior prevalência na faixa dos 20 aos 29 anos. Isso se soma à redução do uso de preservativos e à falsa sensação de proteção plena promovida pela PrEP para outras infecções.

Além do HIV, existem diversas ISTs que preocupam: sífilis, gonorreia, clamídia, herpes, HPV, hepatites virais e outras. Muitas podem ser silenciosas, sem sintomas claros. O perigo de não fazer testes frequentes é real e, na minha experiência, tem impacto direto na saúde sexual coletiva.

Por que jovens adultos estão mais expostos?

Durante rodas de conversa e consultas, ouço relatos de pessoas mais jovens sobre questões emocionais, busca por prazer e pouca tradição em discutir sexualidade abertamente. Isso faz com que, por vezes, a prevenção fique em segundo plano. Sem informação acessível, o risco aumenta.

Há também mudança de hábitos, festas, aplicativos de relacionamento, e acesso amplo a recursos como a PrEP, que são positivos, porém podem gerar descuidos se a orientação não for completa, combinando diferentes estratégias de prevenção.

Quais ISTs mais preocupam quem faz PrEP?

Em meu consultório, vejo que algumas ISTs preocupam mais. É importante ter clareza de que, ao contrário do HIV, a PrEP não oferece proteção contra infecções como sífilis, gonorreia e clamídia. Esses agentes são transmitidos facilmente durante as relações sexuais—envolvendo contato oral, anal ou vaginal, independentemente da presença de sintomas.

  • Sífilis: Apresenta estágios e sintomas distintos, podendo até não causar manifestações evidentes em alguns momentos.
  • Gonorreia e clamídia: Costumam ser assintomáticas em grande parte dos casos, principalmente em mulheres e em infecções na garganta e no reto.
  • Herpes genital: Não tem cura, mas controle e diagnóstico precoce permitem evitar surpresas desagradáveis e transmissão desnecessária.
  • HPV: Altamente contagioso, o vírus pode ser transmitido mesmo sem sintomas aparentes.
  • Hepatites virais: Algumas são preveníveis por vacina, mas outras demandam testagem e monitoramento.

Essas infecções, na maioria das vezes, não dão sinais claros nas etapas iniciais. Por isso, o teste periódico é tão importante, principalmente para quem confia apenas na PrEP.

Consulta médica com profissional de infectologia, PrEP sobre a mesa, pessoa recebendo orientações sobre ISTs

Por que a testagem contínua para ISTs é tão necessária?

Este é um dos pontos nos quais sempre bato na tecla. Não é incomum alguém me dizer: “Estou usando PrEP, logo estou protegido.” Mas não é bem assim. O acompanhamento laboratorial frequente faz parte do pacote de quem busca saúde sexual responsável.

Em minha experiência prática, explico que o ciclo ideal de testagens costuma ser trimestral para quem faz PrEP, avaliando:

  • Sorologia para HIV (para garantir a efetividade e segurança da PrEP)
  • Sífilis (VDRL ou testes rápidos)
  • Gonorreia e clamídia (coleta de material de uretra, garganta e reto, conforme prática sexual)
  • Hepatites virais (B e C)
  • Exame clínico para verrugas, lesões ou outras manifestações de ISTs

Triagem regular salva vidas e evita complicações.

Quem faz a testagem contínua garante diagnóstico precoce, evitando quadros graves e complicações futuras. A detecção rápida também permite iniciar tratamento e interromper a cadeia de transmissão.

Por que não basta testar só quando surgem sintomas?

O grande desafio é: boa parte das ISTs, como mostrei acima, são assintomáticas. Então, testar apenas quando algo estranho aparece significa, muitas vezes, perder tempo precioso nos cuidados e aumentar riscos para si e para os parceiros.

O medo do estigma faz algumas pessoas deixarem para depois, esquecendo que a maioria dos tratamentos é simples e eficiente, especialmente quando realizados precocemente.

Orientações práticas para testagem regular

No meu consultório e também em ambientes de educação em saúde, recomendo algumas orientações valiosas. Primeiramente, recomendo interiorizar que a prevenção combinada é o caminho mais seguro. Isso inclui:

  • Uso regular de preservativos
  • Lubrificantes à base de água ou silicone para evitar microlesões durante o sexo
  • Testagem de rotina, mesmo para quem usa PrEP
  • Vacinação (para HPV e hepatite B, por exemplo)
  • Atenção aos sinais e sintomas, mas sem se prender apenas a eles

Inclusive, a orientação do infectologista Tobias Garcez evidencia que a combinação de diferentes estratégias, desde o uso de preservativos ao acompanhamento regular, é o melhor caminho para prevenção de ISTs. Essa abordagem é chamada de prevenção combinada.

Pessoa em laboratório realizando coleta de sangue para testar ISTs

E a facilidade de testar?

Hoje, felizmente, há uma ampla oferta de exames em ambulatórios, serviços de referência e clínicas privadas. O acesso está bem mais próximo. Além de testes laboratoriais convencionais, existem os chamados testes rápidos para algumas infecções, com resultado em minutos. Mesmo assim, a consulta médica ainda faz a diferença, pois direciona quais exames são relevantes para cada pessoa.

Estou certo de que quanto mais informação acessível, melhor a adesão à rotina de testes. E vejo isso funcionar na prática: campanhas educativas, como as palestras educativas de prevenção às ISTs, têm gerado impacto positivo no entendimento coletivo sobre o cuidado com a saúde sexual.

Informação clara é ferramenta de liberdade.

Triagem contínua: efeitos além do diagnóstico

Um aspecto que faço questão de ressaltar no dia a dia é: a testagem frequente traduz-se em cuidado integral. Essa prática ajuda a reduzir a transmissão das ISTs em toda a comunidade, ao diagnosticar precocemente, interromper cadeias de transmissão e informar sobre tratamentos disponíveis.

Outro ganho que observo é o autoconhecimento. Muita gente relata sentir maior controle, segurança e leveza ao adotar a rotina de exames regulares. O cuidado, nesse contexto, vai além da ausência de doença: é sobre protagonismo e respeito ao próprio corpo.

Para quem quiser se aprofundar nos temas relacionados à prevenção, indico a visita à categoria profilaxia pré-exposição, onde há artigos detalhados sobre o tema.

Desafios na rotina de testagem em usuários de PrEP

Mesmo com tudo isso, percebo alguns obstáculos para uma rotina efetiva de testagem entre pessoas que fazem uso da PrEP. Alguns dos principais desafios são:

  • Desinformação sobre a real necessidade dos exames mesmo durante uso da PrEP
  • Estigma associado à testagem repetida ou medo do diagnóstico
  • Desorganização na rotina, esquecendo-se das datas recomendadas
  • Receio de julgamento nas unidades de saúde
  • Dificuldade em acessar serviços de saúde em regiões mais afastadas

No entanto, cada vez mais observo dispositivos de saúde pública, serviços privados e consultórios trabalhando para superar essas barreiras com acolhimento, orientação ajustada e campanhas informativas.

Dicas para integrar a testagem à rotina

Uma estratégia que costumo sugerir é associar a testagem periódica a datas simbólicas ou eventos sazonais de prevenção. Pelo menos a cada três meses, insira um lembrete no celular, partilhe a intenção com um amigo próximo ou parceiro de confiança. Isso ajuda a construir um hábito que, em pouco tempo, se torna natural e livre de ansiedade.

Mesa com materiais informativos sobre ISTs, preservativos, carteirinha de vacinação e caixa com remédios

O que fazer quando um teste de IST dá positivo?

Essa pergunta aparece muito nas minhas conversas: “Descobri uma IST, e agora?” O primeiro passo é não se desesperar. A maioria das ISTs possuem tratamento disponível e, quando seguidos corretamente, promovem cura (no caso da sífilis, gonorreia, clamídia) ou controle seguro (caso do HIV, herpes e hepatite B crônica).

Costumo orientar os seguintes passos de forma simples:

  • Buscar consulta médica para confirmação, avaliação e elegibilidade do tratamento
  • Iniciar tratamento rapidamente
  • Avisar parceiros e parceiras sexuais recentes, permitindo que também realizem testagem
  • Seguir todas as orientações até finalização do tratamento
  • Redobrar atenção nas próximas testagens e cuidados preventivos

Até mesmo quem segue a rotina de acompanhamento em PrEP pode estar sujeito a ISTs. Por isso, o médico costuma agendar todas as etapas, garantindo segurança e acompanhamento próximo.

A importância do tratamento contínuo e prevenção combinada

Advogo há muitos anos sobre o conceito de prevenção combinada. No contexto das ISTs, ele inclui uma série de ferramentas que vão muito além da PrEP:

  • Informação qualificada
  • Testagem periódica para ISTs
  • Uso de preservativos
  • Vacinação (HPV, hepatite B e outras)
  • Acompanhamento médico contínuo
  • Diálogo aberto com parceiros sexuais

Inclusive, recomendo explorar as informações na sessão de infecções sexualmente transmissíveis para compreender melhor cada uma dessas estratégias e onde buscá-las.

É um equívoco pensar que adotar uma só medida é suficiente. Quando somamos diferentes formas de proteção, aumentamos a segurança e tornamos a busca prazerosa, leve e sustentável. Assim, há mais liberdade e menos ansiedade.

Testagem frequente: impacto na saúde pública

Ao enxergar além do indivíduo, consigo perceber, com clareza, que o autocuidado de uma pessoa influencia diretamente na saúde coletiva. Ao identificar precocemente uma IST, interrompe-se o ciclo de transmissão e multiplica-se o efeito positivo para toda a rede de contatos daquela pessoa.

Esse impacto é sentido nas estatísticas, reduzindo casos graves, hospitalizações e superlotação dos serviços especializados. A testagem frequente é também um ato de cidadania: informa, protege e inspira outras pessoas no entorno a também cuidar de si mesmas.

Se interessar aprofundar sobre ISTs e medidas protetivas, há bastante informação reunida na seção de infeções sexualmente transmissíveis.

O papel da informação e da escuta acolhedora

Faço questão de valorizar, em todos os atendimentos e materiais educativos que produzo, os dois pilares do autocuidado sexual: informação e escuta sem julgamentos. Quando criamos ambientes acolhedores e abertos, o diálogo flui e as dúvidas aparecem sem barreiras. É esse ambiente que permite construir pontes e incentivar a adesão à testagem contínua.

O conhecimento salva vidas, e a escuta aberta transforma o medo em atitude. Ao criar espaços para perguntas e trocas de experiências, já observei diversas vezes pacientes deixando para trás o preconceito e abraçando a saúde como parte essencial da vida afetiva.

Autocuidado também é ato de coragem.

Avanços e perspectivas para o futuro

Vejo um cenário de avanços: mais pessoas informadas, campanhas públicas e privadas esclarecendo dúvidas, facilidade no acesso aos exames e tratamentos, surgimento de novas tecnologias diagnósticas e, principalmente, mais conversa aberta sobre sexo sem tabus. O que era assunto restrito, hoje movimenta rodas de conversa e ganha espaço no cotidiano.

Mesmo assim, desafios permanecem: atingir populações mais vulneráveis, combater o preconceito, expandir acesso à tecnologia e garantir capacitação de equipes de saúde para atendimento sem discriminação.

Fico animado ao ver essas mudanças e otimista com o movimento de conscientização crescente. Se informação de qualidade chega mais longe, é possível transformar o cenário das ISTs e saúde sexual com protagonismo e autonomia.

Conclusão

Sinto que, ao falar sobre PrEP e outras ISTs, entregar conhecimento e orientação prática, o objetivo é sempre o mesmo: proporcionar segurança, liberdade e saúde sexual de verdade. É possível viver plenamente a sexualidade, desde que com informação, testagem regular e prevenção combinada. Não deixe de buscar orientações, realizar exames e dialogar com profissionais qualificados.

A vigilância constante não é sinônimo de paranoia. É parte de um ciclo de responsabilidade, autocuidado e respeito mútuo. Toda vez que você se testa, cuida de si e do coletivo. Esse é o verdadeiro pacto pela saúde sexual plena.

Perguntas frequentes

O que é PrEP e para que serve?

PrEP é a sigla para Profilaxia Pré-Exposição, uma estratégia medicamentosa para pessoas que não vivem com HIV, usada para evitar a infecção em caso de exposição ao vírus. Ela envolve o uso contínuo, geralmente diário, de medicamentos específicos, e tem alta eficácia quando usada corretamente e sob supervisão médica.

Como funciona o teste para outras ISTs?

Os testes para ISTs são exames de sangue, urina ou coleta de material genital, oral e retal, que identificam a presença de agentes infecciosos como sífilis, gonorreia, clamídia, herpes, hepatites e HPV. Muitos exames são rápidos e indolores, e a indicação dos testes depende do perfil de risco da pessoa e das práticas sexuais.

Qual a importância da triagem contínua?

A triagem contínua permite diagnóstico precoce, tratamento adequado e redução significativa da transmissão de ISTs. Mesmo quem não apresenta sintomas pode estar infectado e, ao testar regularmente, evita-se complicações de longo prazo e protege-se a si e aos parceiros sexuais.

Onde posso fazer testes de ISTs?

Os testes podem ser realizados em unidades básicas de saúde, clínicas de infectologia, ambulatórios de referência, laboratórios privados e em campanhas públicas sazonais. Buscar orientação profissional ao escolher onde testar garante que você receba os exames indicados para o seu caso e acompanhamento adequado.

PrEP previne todas as ISTs?

Não, a PrEP previne apenas a infecção pelo HIV, não havendo proteção contra sífilis, gonorreia, clamídia, herpes, HPV, hepatites virais ou outras ISTs. Por isso, a prevenção combinada, incluindo uso de preservativos e testagem regular, continua fundamental para saúde sexual completa.