No meu trabalho como infectologista, vi crescer a curiosidade, e também a confusão, em torno da PrEP (profilaxia pré-exposição) para o HIV. Muitos chegam no consultório carregando dúvidas, receios e, principalmente, mitos. Ao longo dos anos, percebi que falar sobre a PrEP de forma simples, clara e baseada em fatos é o jeito mais eficaz de afastar receios infundados. Afinal, informação correta pode ser a diferença entre o medo e o cuidado.
Conceitos iniciais: o que é PrEP?
Antes de debater mitos, preciso explicar: a PrEP é uma estratégia preventiva que envolve o uso de medicação antirretroviral, tomada por pessoas HIV negativas, para reduzir o risco de adquirir o vírus em situações de exposição sexual ou contato com sangue.
O remédio é uma combinação de dois antirretrovirais, conhecidos pela sigla TDF/FTC. Quem adota esse método faz uso contínuo do medicamento, como o nome já diz, com o objetivo de atuar antes (profilaxia pré) da exposição.
Muitos se perguntam:
Qual o público ideal para o uso da PrEP?
Em linhas gerais, são pessoas com risco aumentado para infecção por HIV. Isso inclui gays, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas trans, casais sorodiferentes, entre outros. Mais detalhes sobre quem pode usar PrEP estão disponíveis em fontes como a lista completa de critérios.
Como funciona a PrEP no organismo
A PrEP age impedindo que o HIV se estabeleça e se multiplique no organismo, caso haja um contato com o vírus. Ou seja, ela cria uma barreira química eficiente, desde que a pessoa esteja com níveis adequados do remédio no sangue.
E aqui está um ponto fundamental: para garantir máxima proteção, a regularidade no uso diário é indispensável. Tomar a medicação de forma irregular reduz significativamente a proteção.
O tempo para atingir o nível protetor varia de acordo com o perfil da pessoa:
- Em homens cisgênero, estudos demonstram uma proteção significativa após 7 dias de uso contínuo.
- Em mulheres cisgênero e pessoas trans, pesquisas apontam que a proteção ideal costuma ser alcançada também após 7 dias de uso permanente, como indica o Ministério da Saúde.
Mitos mais comuns sobre a PrEP
Depois dessas informações básicas, quero abordar os mitos que mais escuto nos atendimentos e nas conversas.
1. “PrEP é só para quem tem vida sexual de risco”
Esse pensamento é bastante frequente, mas está errado. PrEP é uma opção para qualquer pessoa que, em algum momento, possa estar sob risco aumentado de infecção por HIV. O risco não está associado a julgamentos morais; depende apenas de situações de exposição, independente de estilo de vida, orientação sexual ou frequência de práticas sexuais. Conheço pacientes que usaram a PrEP por um período específico, até que suas circunstâncias de vida mudaram, e tudo bem!
2. “Só quem não usa camisinha precisa de PrEP”
Outro mito! Na verdade, a PrEP pode ser usada junto com a camisinha:
- Reforça a proteção contra HIV.
- É recomendada, inclusive, para quem tem dificuldade de usar preservativo de maneira consistente.
- Muitos recorrem à PrEP para ocasiões específicas, como viagens, relacionamentos abertos, ou quando há dúvidas quanto ao status sorológico do parceiro.
Vale lembrar, porém, que a PrEP não protege contra outras ISTs, como sífilis, gonorreia ou clamídia.
3. “A PrEP causa muitos efeitos colaterais”
É comum ouvir que a PrEP traz sérios efeitos, o que não se confirma na prática. Na minha experiência clínica e com base em estudos amplos, a maioria das pessoas não sente efeitos colaterais importantes ou persistentes. Os efeitos mais frequentes, como leve desconforto gástrico ou dor de cabeça, costumam desaparecer nos primeiros dias.
4. “A PrEP faz mal para o fígado ou rim”
Algumas dúvidas surgem sobre impactos a longo prazo. Desde que haja acompanhamento médico e exames periódicos, o que sempre recomendo —, o uso da PrEP apresenta enorme segurança. Casos de alterações em fígado ou rins são raríssimos, e normalmente a suspensão do medicamento é suficiente para reverter qualquer sinal laboratorial.
5. “Quem usa PrEP pode se descuidar de vez”
A PrEP protege contra o HIV, mas não elimina o risco de outras infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, oriento que, mesmo em uso da PrEP, a realização de exames periódicos e outras medidas de prevenção, como o uso de preservativo, continuam sendo aliados fundamentais.
6. “A PrEP não funciona para todos”
Estudos internacionais e nacionais indicam altíssima proteção quando utilizada corretamente. Casos de falha são exceção e, quase sempre, estão associados a uso irregular da medicação, sem a adesão diária recomendada. Por isso, seguir as orientações de uso é o segredo para obter a proteção desejada.

Verdades que poucos sabem sobre a PrEP
Agora, gostaria de compartilhar algumas verdades que vejo serem pouco discutidas, e são fundamentais!
1. Adesão é mais fácil do que muita gente imagina
Muitos temem não “lembrar” de tomar a PrEP todos os dias. No entanto, depois de adotar uma rotina, vejo que a maioria dos pacientes incorpora a medicação com facilidade, como parte do dia a dia, semelhante ao uso de vitaminas.
2. O acompanhamento é simples e rápido
Consultas regulares servem para garantir que tudo esteja indo bem. No cotidiano, além do monitoramento do HIV e outras ISTs, são pedidos exames laboratoriais simples. Esse acompanhamento favorece a saúde integral, não apenas a prevenção do HIV.
3. Existe também a PrEP sob demanda
Para alguns públicos (em especial homens cisgênero que fazem sexo com homens), há uma alternativa chamada PrEP sob demanda. Ela envolve um esquema específico de tomada, apenas antes e depois das exposições ao risco. Vale a pena saber mais sobre a diferença entre PrEP diária e sob demanda, pois pode se encaixar em situações pontuais.
4. A PrEP está cada vez mais acessível
No Brasil, a expansão do acesso à PrEP é uma realidade. Segundo notícia do Ministério da Saúde, o país dobrou o número de usuários da PrEP em menos de dois anos, de 50 mil para 104 mil entre 2022 e 2024. Isso demonstra que cada vez mais pessoas buscam prevenção ativa e informada.

Desmistificando riscos e benefícios
Sinto que um dos maiores ganhos do uso da PrEP é a liberdade: liberdade para se cuidar, para escolher e para se informar. Mas essa liberdade só faz sentido quando é acompanhada de conhecimento real sobre riscos e benefícios.
Principais benefícios da PrEP
- Redução significativa do risco de infecção pelo HIV.
- Facilidade de uso: apenas um comprimido ao dia num horário regular.
- Poucos efeitos colaterais e reversíveis.
- Reforça a autonomia dos usuários sobre a própria saúde sexual.
Possíveis riscos e limitações
- O uso irregular reduz ou elimina a proteção.
- A PrEP não bloqueia outras ISTs.
- É recomendada a realização periódica de exames para monitoramento.
- Em casos raros, podem ocorrer alterações nos exames de fígado ou rim, geralmente reversíveis.
Conhecimento e acompanhamento médico formam a combinação mais potente para uma vida livre do HIV.
Dúvidas práticas sobre o uso diário
No cotidiano de quem está começando a PrEP, vejo que algumas dúvidas se repetem, principalmente em relação ao uso diário. Vou compartilhar aqui as mais comuns que surgem nas consultas e em conversas com pacientes:
Como garantir o uso correto da PrEP?
Eu sempre sugiro alguns passos:
- Deixar a caixa no mesmo local onde já faz outras atividades diárias, como escovar os dentes ou tomar café.
- Usar alarmes ou aplicativos para lembrar do horário.
- Pedir à farmácia para embalar os comprimidos em sachês diários individuais, facilitando o transporte.
Manter a regularidade é fundamental para alcançar a proteção total. Perder uma ou duas doses raramente anula o benefício, mas o uso frequente “pela metade”, dia sim/dia não, compromete a prevenção.
É possível fazer pausas na PrEP?
Sim, desde que sob orientação médica. A interrupção pode ser considerada quando cessam as situações de risco. O profissional orientará se é necessário fazer exames de controle e qual a janela ideal de retomada, caso o risco volte a existir.
E se esquecer de tomar a PrEP um dia?
Se a dose esquecida for recente (menos de 12 horas), tome assim que lembrar. Se já estiver perto do horário da próxima, mantenha a rotina usual, nunca tome duas doses juntas. O mais importante é não transformar o esquecimento em hábito.
Desinformação e estigma em torno da PrEP
É impressionante como a desinformação abre espaço para o estigma. Em várias situações, ouço relatos de julgamentos, suposições e até preconceito por alguém estar utilizando a PrEP.
Na minha vivência, combater esse estigma é tão importante quanto disseminar informação. Utilizar PrEP é um sinal de autocuidado, e não de promiscuidade. Trata-se de um avanço que deve ser celebrado e disseminado sem medo ou vergonha.

Eficácia real da PrEP: o que mostram os estudos?
Sempre que questionado sobre a eficácia da PrEP, apresento os dados reais: quando utilizada corretamente, a PrEP reduz em mais de 90% o risco de infecção pelo HIV em exposições sexuais. Em contextos específicos e com alta adesão, esse índice pode se aproximar dos 99%.
Publicações científicas e órgãos governamentais destacam: os raros casos de infecção ocorrem quase sempre devido a uso irregular da medicação ou início da PrEP próximo de exposições de alto risco, sem atingir ainda o nível protetor. Ou seja, seguir a recomendação médica é a chave para uma eficácia quase total.
Outro ponto positivo é que o acompanhamento clínico especializado não só amplia a segurança, como introduz o paciente a uma rotina saudável de autocuidado.
Quando considerar iniciar a PrEP?
Talvez a dúvida mais relevante seja: “devo começar a PrEP?”. Na minha experiência, a decisão é individual e parte sempre da avaliação do risco potencial. Algumas situações em que pode ser útil considerar:
- Ter múltiplos parceiros, principalmente sem uso consistente de preservativo.
- Se algum parceiro faz uso irregular de terapia antirretroviral.
- Quando há dúvidas sobre o histórico sexual do parceiro.
- Pessoas que vivem em comunidades ou contextos de alta prevalência do HIV.
Vale lembrar que, além da PrEP, existe a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), indicada quando já houve uma situação de risco, diferente do uso preventivo contínuo da PrEP.
Onde encontrar informação e acompanhamento seguro?
Muitos têm receio de buscar o serviço de saúde e encontrar barreiras. Entretanto, os protocolos atuais e o fluxo de atendimento estão cada vez mais integrados e humanos. O acervo de conteúdos sobre PrEP está ao alcance de todos que buscam respostas seguras e atualizadas.
Conclusão
Eu aprendi, ao longo dos anos, que disseminar fatos é uma forma potente de transformar vidas. Esclarecer dúvidas, desmistificar mitos e promover informação salva, literalmente, vidas. A PrEP é resultado do avanço científico em saúde sexual e conta cada vez mais com adesão no Brasil, protegendo pessoas, relacionamentos e gerações inteiras.
O uso diário da PrEP é seguro, eficaz e permite que cada pessoa assuma o protagonismo da própria saúde sexual. Consultar fontes confiáveis, tirar dúvidas com especialistas e abandonar o preconceito são passos fundamentais para que todos possam se beneficiar da melhor prevenção possível contra o HIV. Informação é poder, seu cuidado com a saúde também.
Perguntas frequentes sobre PrEP
O que é a PrEP?
PrEP significa profilaxia pré-exposição e consiste no uso diário de um medicamento específico por pessoas que não têm HIV, mas que têm risco aumentado de entrar em contato com o vírus durante relações sexuais ou outro tipo de exposição. O objetivo é criar uma barreira protetora que impede a multiplicação do HIV no organismo, proporcionando assim uma proteção altamente eficiente.
Como a PrEP deve ser usada?
A PrEP deve ser tomada todos os dias, em um horário fixo, semelhante ao uso de qualquer outro medicamento crônico. Recomendo sempre manter esse hábito associado a alguma rotina cotidiana, como ao acordar ou antes de dormir. Para mulheres cisgênero e pessoas trans, o efeito protetor adequado acontece após pelo menos 7 dias de uso regular, conforme detalha o Ministério da Saúde. Homens cisgênero atingem proteção semelhante no mesmo intervalo.
Quais os efeitos colaterais da PrEP?
Os efeitos colaterais mais frequentes são leves e transitórios, como dor de cabeça, náusea ou desconforto abdominal, desaparecendo geralmente após os primeiros dias de uso. Eventos adversos mais sérios, como alterações em exames de fígado ou rim, são raros e costumam ser revertidos com acompanhamento médico. O monitoramento regular nas consultas garante o uso seguro e tranquilo do medicamento.
A PrEP é 100% eficaz?
Nenhum método preventivo é absolutamente infalível, mas quando utilizada corretamente, a PrEP reduz o risco de infecção pelo HIV em mais de 90%, podendo superar 99% em situações de alta adesão. Casos de falha são raríssimos e relacionam-se, na maior parte das vezes, a uso irregular ou início do tratamento muito próximo à exposição ao risco.
Onde posso conseguir PrEP?
A PrEP está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde em diversos centros de referência e serviços de infectologia em todo o Brasil. Para iniciar o uso, é fundamental passar por avaliação médica, exames de rotina e acompanhamento regular. Informações detalhadas sobre o acesso, indicação e critérios de uso podem ser consultadas em plataformas seguras de saúde do Ministério da Saúde e em serviços especializados de infectologia.


