Falar sobre prevenção ao HIV em relações afetivas envolve não só conhecimento sobre as alternativas disponíveis, mas também acolhimento e respeito entre ambas as pessoas envolvidas. Nos últimos anos, um tema tem alcançado destaque crescente nas conversas que tenho com casais: a PrEP para o parceiro da pessoa vivendo com HIV em relação sorodiferente (quando um é soropositivo e outro, soronegativo). Tenho percebido, pela prática clínica e pelo contato com pacientes, que esse cuidado vai muito além de tomar um comprimido. É uma escolha baseada em proteção, tranquilidade e, principalmente, parceria.
O que é a PrEP e para quem está indicada?
PrEP é a sigla para Profilaxia Pré-Exposição. Trata-se de um método de prevenção que consiste no uso regular de medicamentos antirretrovirais (ARVs) por pessoas que não vivem com HIV, mas que estão em risco de entrar em contato com o vírus, reduzindo muito as chances de infecção. Quando o casal é sorodiferente, ela se torna uma ferramenta valiosa para quem busca construir relações mais seguras e livres de estigma.
Os estudos mostram que a PrEP pode reduzir o risco de infecção pelo HIV em mais de 90% quando usada corretamente. Em casais sorodiferentes, a redução do risco chega a 75%, e até 90% para quem apresenta alta adesão ao tratamento, como apresentado pelos dados do Ministério da Saúde. Isso demonstra como ela pode ser uma ferramenta poderosa para quem está em uma relação com alguém que vive com HIV.
Por que usar PrEP em relações sorodiferentes?
O conceito de I=I (Indetectável = Intransmissível) revolucionou o cuidado em HIV. Pessoas que atingem carga viral indetectável não transmitem o vírus sexualmente. Isso é fato científico. Porém, há situações na rotina dos casais que podem trazer dúvidas, inseguranças ou simplesmente a busca por uma camada extra de proteção.
- Quando o parceiro que vive com HIV acabou de iniciar o tratamento e ainda não atingiu a carga viral indetectável.
- Quando há dúvidas sobre a regularidade da tomada do tratamento pelo parceiro soropositivo.
- Quando a decisão conjunta envolve abandonar o uso de preservativo com o máximo de segurança possível.
- Quando a ansiedade, medo ou insegurança ainda são presentes, mesmo sabendo do conceito de I=I.
- Em situações de gravidez ou quando se deseja engravidar de maneira mais tranquila.
Em todas essas situações, conversar sobre PrEP pode ser transformador. Já ouvi, em meu consultório, pessoas dizendo que a PrEP não só diminuiu o risco de infecção, mas também o peso emocional e a ansiedade que sentiam antes de cada relação.
Ninguém precisa carregar sozinho o peso da dúvida.
Como funciona o acesso à PrEP no Brasil?
Felizmente, o acesso à PrEP nunca esteve tão próximo da população. O Ministério da Saúde anunciou que o número de usuários dobrou em dois anos, chegando a 104 mil pessoas em 2024. O acesso gratuito se dá pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seguindo critérios do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).
Entre os critérios de elegibilidade, está a condição de ser parceiro sorodiferente. Ou seja: quem está em relacionamento fixo com pessoa vivendo com HIV, seja casado, em união estável ou namoro, pode receber a PrEP pelo SUS.
Para entender com detalhes quem pode receber, recomendo a leitura sobre os critérios de elegibilidade para PrEP no Brasil.
O dia a dia da PrEP: como é o uso?
Muitos ainda acreditam que tomar a PrEP é um processo complexo, mas considero prático e acessível. O esquema mais usado é de um comprimido ao dia, o que facilita a rotina. O importante é criar o hábito, um ritual diário de autocuidado. Assim como escovar os dentes, tomar a PrEP passa a fazer parte do dia. Costumo orientar: escolha um horário fixo e associe a um hábito que já faz parte da rotina. Isso ajuda muito na adesão.

Existe, também, um esquema chamado “PrEP sob demanda”, indicado atualmente para alguns perfis específicos e com algumas limitações. Porém, para casais sorodiferentes, o esquema diário costuma ser o preferido e o recomendado.
Exames de acompanhamento: segurança e cuidado
Ao iniciar a PrEP, é necessária uma avaliação médica. Serão realizados exames como teste de HIV (para garantir que a pessoa não tenha sido recentemente infectada), função renal e exames para outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Esse acompanhamento é repetido a cada três meses, garantindo segurança à saúde de quem está usando PrEP. A regularidade nesses retornos proporciona um cuidado global e atualizado, não só para prevenir o HIV, mas para olhar a saúde sexual de forma integral.
PrEP não é desconfiança: é cuidado com o outro e consigo
Quero destacar um ponto que sempre surge nas consultas. Usar PrEP em uma relação com pessoa vivendo com HIV não significa falta de confiança. Cuidar da própria saúde é também cuidar da relação, é construir um espaço de confiança e respeito. Em minha experiência, essa conversa é uma das mais delicadas, mas também uma das que mais fortalecem laços: “Eu uso PrEP porque quero nos proteger e estar bem ao seu lado”.
Fortalecer a parceria é escolher o cuidado mútuo.
Quando, então, faz sentido considerar a PrEP?
Mesmo conhecendo o conceito de I=I, muitas pessoas optam pela PrEP por motivos que vão desde o início recente do tratamento até a vontade de ter mais liberdade. Alguns exemplos frequentes na minha rotina clínica:
- Parceiro ainda não indetectável: Após o diagnóstico, até a carga viral se tornar indetectável, o risco de transmissão ainda existe. A PrEP, aqui, é um reforço importante nessa transição.
- Dúvidas quanto à adesão: Se o parceiro positivamente soropositivo não está conseguindo tomar o remédio todos os dias (por esquecimento, rotina difícil, uso de substâncias), a PrEP se mostra uma rede de segurança extra.
- Desejo de engravidar: Nesses casos, PrEP traz mais tranquilidade para ambos.
- Optar por abrir mão da camisinha: Muitos casais, após algumas conversas, querem abandonar o preservativo. A PrEP pode ser o elemento final dessa decisão responsável.
- Cuidar do emocional: Não se pode desconsiderar o impacto do medo, da ansiedade e do estigma. PrEP ajuda a diminuir esse peso invisível presente em muitas relações.
Se você se identifica com algum desses cenários, conversar com um profissional pode ser o primeiro passo para entender se a PrEP faz sentido na sua história. Falo isso porque sei que cada casal tem uma vivência única e merece orientação personalizada.
Dados recentes e o aumento da PrEP no Brasil
Sinto-me encorajado pelo fato de que, recentemente, o acesso à PrEP está crescendo de forma expressiva. O Brasil dobrou o número de usuários em pouco menos de dois anos. No ano de 2025, o uso regular cresceu 28,1%, passando de 110.733 para 141.891 unidades dispensadas, segundo dados oficiais. Isso revela não só a demanda, mas a confiança que as pessoas vêm depositando nessa estratégia de prevenção.
No entanto, uma outra informação me faz refletir: o número de interrupções de tratamento também subiu, atingindo 77.522 casos em 2025. O acompanhamento médico e o suporte emocional constante são essenciais para virar esse jogo e ampliar o sucesso dessa prevenção.

PrEP gratuita e para todos: SUS e critérios para casais sorodiferentes
Um ponto que sempre faço questão de reforçar: A PrEP para parceiros de pessoas que vivem com HIV é gratuita pelo SUS. Isso está incluído nas diretrizes clínicas atuais brasileiras, como parte da estratégia nacional de prevenção combinada (estratégia nacional).
Para acessar, basta procurar um serviço especializado ou de atenção básica habilitado, realizar uma avaliação inicial, os exames necessários e começar o acompanhamento regular. Você pode conhecer detalhes sobre políticas, critérios, exames e funcionamento no artigo sobre profilaxias em infectologia.
Acompanhamento: testagem trimestral e exames de função renal
Ao iniciar a PrEP, também começa um acompanhamento que favorece a saúde global de quem utiliza esse método. Toda pessoa usando PrEP deve comparecer trimestralmente ao serviço para:
- Testar para HIV, garantindo que não houve infecção recente.
- Receber avaliação clínica sobre efeitos colaterais e sinais de intolerância.
- Medir função renal por meio de exames de sangue e urina.
- Fazer a investigação de possíveis infecções sexualmente transmissíveis.
Essas consultas regulares são momentos de orientação, atualização e cuidado em saúde. Muitas vezes, vejo que esse acompanhamento aproxima o casal da rede de saúde, quebra tabus e abre portas para mais informação e proteção.
Adesão, interrupção e o fenômeno das mulheres na PrEP
Os estudos mais recentes ainda mostram uma baixa adesão entre mulheres cis e trans. Em 2025, apenas 8,8% dos usuários de PrEP eram mulheres, de acordo com dados divulgados. Fico pensando em quantas mulheres em relações sorodiferentes poderiam se beneficiar desse conhecimento e acesso. Informação é poder, e compartilhar esse saber pode transformar vidas e relações.
PrEP como proteção adicional ao conceito de I=I
O conceito Indetectável = Intransmissível é referência global. Mas situações do cotidiano podem influenciar a decisão de usar mais de um método de prevenção. Compartilho, em minha prática, cenários em que a PrEP se mostrou fundamental, mesmo para quem já entendia e confiava no I=I:
- Quando há períodos em que o parceiro soropositivo não toma o remédio corretamente, seja por intercorrências de saúde, viagens ou outros imprevistos.
- Logo após iniciar o tratamento, quando ainda não há certeza da carga viral indetectável.
- Quando há desejo de engravidar, reforçando a proteção durante as tentativas.
Nesse contexto, a PrEP não nega o I=I, mas adiciona mais proteção e diminui a pressão emocional sobre a relação.

Diálogo, empatia e proteção: um novo olhar para a prevenção no casal
Em toda minha trajetória, observo que a PrEP, quando bem compreendida, traz à tona conversas profundas sobre confiança e cuidado. Usar a PrEP, em especial na relação sorodiferente, não diminui o valor do companheirismo e do compromisso – muito pelo contrário.
PrEP significa escolha consciente. Significa querer o melhor para si e para o outro. Significa liberdade baseada no conhecimento.
Quando as decisões são construídas com respeito, diálogo e informação, o caminho da prevenção se torna leve. A PrEP permite que as pessoas possam vivenciar sua afetividade em plenitude, sem abrir mão do cuidado mútuo. Isso, acredito, é verdadeiro empoderamento.
Se quiser saber mais sobre outros métodos relacionados à prevenção do HIV, recomendo os conteúdos sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV, profilaxia pós-exposição (PEP) disponível em explicação sobre PEP e detalhes do serviço em profilaxia pré-exposição.
Conclusão
Em relações sorodiferentes, o conhecimento sobre a PrEP transforma o modo como o casal vivencia a saúde, o cuidado e a rotina sexual. O uso da PrEP vai muito além da prevenção: serve para fortalecer laços, reduzir o medo, promover autonomia e abrir espaço para o diálogo franco.
Estar informado, respeitar as necessidades de ambos e buscar apoio médico regular são as estratégias que vejo, nos meus atendimentos, criando relações mais seguras, plenas e pacíficas. Se você ou sua parceria se reconhecem nessa situação, procure um serviço de saúde, converse, pergunte, tire dúvidas. A ciência e as políticas públicas estão do seu lado para ajudar a construir relações livres, saudáveis e bem-informadas.
Perguntas frequentes sobre PrEP para parcerias sorodiferentes
O que é PrEP para casal sorodiferente?
PrEP para casal sorodiferente é a estratégia de usar medicamentos antirretrovirais por pessoas que não vivem com HIV, mas que têm um parceiro soropositivo, buscando prevenir a transmissão do vírus durante as relações sexuais. Essa proteção adicional é indicada para quem quer segurança extra, especialmente em momentos de início de tratamento, dúvidas sobre adesão ou quando o casal deseja não usar preservativo.
Como funciona a PrEP para parceiros de HIV?
A PrEP funciona com o uso diário de um comprimido, contendo tenofovir e entricitabina. Esses medicamentos impedem que o HIV se estabeleça e se multiplique no organismo caso exista contato com o vírus em uma relação sexual. Ao manter o uso correto e regular, o risco de infecção é reduzido em mais de 90%, de acordo com os estudos disponíveis.
PrEP é seguro para parceiro de pessoa com HIV?
Sim, a segurança da PrEP é comprovada em diversos estudos. Os principais efeitos colaterais tendem a ser leves e transitórios, como pequenas alterações gastrointestinais, dores de cabeça ou desconforto. O acompanhamento médico trimestral monitora possíveis alterações renais e garante o uso seguro por tempo prolongado.
Onde conseguir PrEP para casais sorodiferentes?
A PrEP é disponibilizada gratuitamente pelo SUS em serviços de saúde especializados e atenção básica habilitada. Basta procurar a unidade mais próxima, fazer a avaliação inicial com exames e iniciar o acompanhamento regular. O acesso gratuito está garantido para parcerias sorodiferentes conforme os protocolos nacionais.
Quanto custa a PrEP para parceiros de HIV?
No Brasil, a PrEP é oferecida de forma gratuita pelo SUS para quem se enquadra nos critérios de risco, incluindo parceiros de pessoas vivendo com HIV em relações sorodiferentes. Não há custos para exames, consultas e medicamentos quando realizados em unidades do SUS.


