Eu me lembro perfeitamente de quando ouvi falar pela primeira vez em prevenção combinada na sala de aula e, depois, no consultório, vi como esse conceito faz sentido na vida real. Unir a PrEP à camisinha significa multiplicar as barreiras de proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), entendendo que cada ferramenta tem suas funções e limites.
Neste artigo, trago tudo que aprendi, de dados recentes, à experiência do consultório, para explicar por que continuar com o uso da camisinha mesmo depois de começar a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP). Vou mostrar os motivos, contar sobre as ISTs não cobertas pela PrEP e contextualizar as decisões individuais, sem julgamentos, apenas com informações para dar autonomia para cada pessoa escolher seus caminhos.
O que é a PrEP e como ela funciona?
A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um método de prevenção do HIV. Isso significa que, quando usada de forma correta e regular, ela pode reduzir drasticamente o risco de infecção pelo vírus em pessoas expostas ao risco, seja por motivos comportamentais, profissionais ou contextos específicos.
Existem diferentes esquemas para tomar a PrEP, incluindo o modelo diário e o chamado PrEP sob demanda, um assunto que já abordei detalhadamente em o que é PrEP sob demanda.
Mas é fundamental reforçar: a PrEP só protege contra o HIV. Ela não possui ação contra outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia, clamídia, HPV, herpes ou hepatites virais.
Por que a camisinha continua relevante com a PrEP?
Às vezes, percebo uma dúvida recorrente entre pacientes: “Se eu já uso PrEP diariamente, ainda preciso usar camisinha?”
Essa questão faz todo sentido, afinal, tomar um remédio que quase zera o risco de HIV traz uma sensação de alívio. No entanto, a camisinha ainda é a única forma de barreira capaz de proteger contra a maioria das ISTs.
- Ela impede o contato direto de fluidos corporais e mucosas.
- Diminui o risco de adquirir e transmitir infecções como sífilis, gonorreia e clamídia, além de auxiliar na prevenção de HPV, herpes genital e hepatites B e C.
Já a PrEP, como citei acima, não protege contra essas outras infecções.
Prevenir o HIV é apenas o primeiro passo. As ISTs continuam sendo uma ameaça real.
O cenário atual das ISTs no Brasil
Vivemos um momento no Brasil em que os números de ISTs, como sífilis e gonorreia, estão crescendo, mesmo entre a população que faz uso regular da PrEP. Estudos e dados nacionais mostram isso de maneira clara.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, cerca de 60% dos brasileiros com mais de 18 anos relataram não usar preservativo em nenhuma relação sexual nos doze meses anteriores à pesquisa. Isso ajuda a explicar o avanço das ISTs no país.
Um estudo recente publicado no Brazilian Journal of Infectious Diseases entrevistou mais de 3.400 usuários de PrEP. Entre eles, 35% foram diagnosticados com alguma IST bacteriana após começarem a profilaxia. A sífilis, por exemplo, teve registros muito elevados em vários estados do país.

Por que as ISTs aumentaram mesmo com a PrEP?
Ao longo do tempo, observei em vários estudos que há uma tendência de redução no uso de preservativos entre pessoas que passam a confiar exclusivamente na PrEP. Isso pode ser explicado por um sentimento de falsa segurança: a ideia de que, estando protegido contra o HIV, não há mais com o que se preocupar.
A soma do abandono da camisinha e do aumento das relações sexuais sem proteção ampliaram as chances de transmissão de outras ISTs, especialmente entre os jovens adultos.
Quais ISTs não são prevenidas pela PrEP?
É só olhar o cenário clínico e os registros epidemiológicos: muitas pessoas acreditam que estão completamente protegidas com a PrEP. No entanto, diversas ISTs continuam circulando e até crescendo em incidência.
- Sífilis: transmitida por contato direto com lesões, apresenta múltiplas fases e pode causar complicações graves caso não tratada.
- Gonorreia: infecção bacteriana que pode causar dor, corrimentos e complicações reprodutivas.
- Clamídia: outra bactéria que afeta principalmente pessoas jovens, podendo evoluir de forma silenciosa e prejudicar a fertilidade.
- HPV: vírus do papiloma humano, responsável por verrugas genitais e alguns tipos de câncer.
- Herpes genital: causador de feridas dolorosas, transmitido mesmo em períodos assintomáticos.
- Hepatite B e C: vírus que atacam o fígado e podem ser transmitidos por relações sexuais sem proteção.
Essas doenças podem ter formas de prevenção específicas, como vacinas para HPV e hepatite B, mas a camisinha ainda é o recurso mais amplo de proteção para as ISTs. No nosso site, detalho mais informações sobre os tipos de ISTs, sinais, diagnóstico e prevenção de cada uma.
O conceito de prevenção combinada
Sempre repito para quem me pergunta: prevenir é um conjunto de estratégias, não só um único passo. A prevenção combinada associa diversos métodos, ajustando-os ao perfil, à rotina e às preferências de cada pessoa.
- Uso regular de preservativos
- PrEP para prevenção do HIV
- Vacinação para HPV e hepatite B
- Testagem periódica para ISTs
- Diálogo aberto entre parceiros
- Redução do número de parceiros ocasionais
Nenhuma dessas estratégias substitui completamente a outra. Elas têm funções complementares. Quando combinadas, a proteção se potencializa, tanto para o HIV quanto para as outras ISTs.

O que acontece se eu decidir não usar camisinha com a PrEP?
Essa pergunta é mais comum do que se imagina. Vejo pessoas com diferentes motivos para escolher não usar preservativo. Às vezes, o casal é sorodiferente, em outros casos há sensibilidade ou incômodo, ou ainda confiança mútua. Não cabe julgamento. Cada pessoa é dona de suas escolhas e do seu corpo.
Se você ou seu parceiro(a) opta por não usar camisinha enquanto faz uso da PrEP, é fundamental estar ciente dos riscos:
- Risco de contrair ISTs bacterianas e virais não prevenidas pela PrEP
- Possibilidade de infecções assintomáticas que podem causar danos a longo prazo
- Maior necessidade de testagens regulares, inclusive exames para sífilis, gonorreia, clamídia, HIV (mesmo em uso da PrEP é necessário checar a adesão e eficácia), hepatites e sorologias para herpes
Nesse cenário, a redução de danos passa a ser a principal estratégia. O autocuidado inclui consultas regulares, testagens frequentes e acesso facilitado ao tratamento, caso necessário. Vale reforçar que testagens trimestrais para ISTs são altamente recomendadas para quem tem exposições de risco, inclusive para quem está em relacionamentos abertos ou não monogâmicos.
Falo mais sobre esse tema nos textos sobre quem pode usar a PrEP e profilaxia em infectologia.
O papel do acompanhamento e da autonomia
Algo que me inquieta é ver pacientes sentindo culpa ou vergonha por suas escolhas. A prevenção combinada não serve para impor regras rígidas, mas para ampliar as possibilidades de proteção e saúde.
Cada pessoa sabe as razões, contextos e negociações envolvidas na vida sexual. O segredo é, ao optar pela PrEP sem camisinha, intensificar o acompanhamento médico e laboratorial, valorizando seu bem-estar físico e mental.
Informação traz liberdade para fazer escolhas conscientes, sem medo ou julgamento.
Redução de danos: um olhar realista
Na minha rotina de atendimento e estudo, aprendi que é melhor dialogar, informar e incentivar estratégias de redução de danos do que tentar impor condutas. Redução de danos significa reconhecer riscos e buscar maneiras de minimizá-los, tornando os hábitos mais seguros.
- Testes frequentes para ISTs
- Discussão honesta sobre práticas sexuais
- Busca por informações confiáveis
- Tratamento precoce em qualquer sinal de IST
- Vacinação sempre que indicada
O Ministério da Saúde, em campanhas como a do Carnaval 2026, reforça a importância dos preservativos e do gel lubrificante distribuídos gratuitamente nos serviços públicos de saúde (Campanha ISTs MS 2026).

Vantagens práticas de manter o uso combinado
Na vida diária, vejo muitos motivos para seguir recomendando o uso da camisinha com a PrEP:
- Reduzir o risco de múltiplas ISTs, algumas muito prevalentes na população geral
- Evitar o aparecimento de sintomas desagradáveis e complicações tardias, como infertilidade, lesões crônicas ou câncer
- Diminuir a ansiedade relacionada ao risco de exposição a infecções
- Mostrar ao parceiro(a) cuidado mútuo
- Facilitar a saúde reprodutiva e o planejamento familiar
A quem se aplica a prevenção combinada?
Na prática clínica, a prevenção combinada se adapta a diferentes contextos:
- Pessoas solteiras ou com múltiplos parceiros
- Casais sorodiferentes (um parceiro HIV positivo, outro negativo)
- Pessoas trans e não binárias
- Homens que fazem sexo com homens (HSH)
- Trabalhadores do sexo
- Qualquer pessoa que deseje aumentar sua proteção
A literatura médica foi clara, especialmente o estudo ImPrEP, ao mostrar que grupos historicamente vulneráveis sofrem mais com infecções bacterianas quando abandonam o uso da camisinha, mesmo mantendo a PrEP em dia. E isso reforça a lógica: não existe excesso de cuidado quando se trata de saúde sexual.
Respeito às escolhas e testagem intensificada
Meu papel, como profissional e como alguém que observa o avanço da saúde coletiva, é informar com clareza e respeito. Ninguém merece culpa ou julgamento por optar por não usar camisinha. O que faço, sempre, é orientar as melhores formas de seguir saudável:
- Testagens a cada 3 meses para ISTs bacterianas
- Procurar atendimento rápido em caso de sintomas
- Falar abertamente sobre proteção com o parceiro(a)
- Buscar fontes confiáveis de informação e serviços de saúde
Cada escolha exige um nível de atenção. Intensificar exames e consultas é parte desse autocuidado.
Conclusão: Prevenção combinada é a abordagem mais segura
PrEP e camisinha não são inimigos, mas aliados estratégicos. Juntos, oferecem uma proteção muito maior, cada um com sua função. O crescimento de ISTs em vários grupos acompanhados mostra que a experiência global em saúde sexual ainda demanda cuidado contínuo, informação clara e respeito à diversidade de decisões.
A prevenção combinada permite adequar a proteção à realidade de cada pessoa, com foco na liberdade, saúde e autonomia. Não se trata de impor regras, mas de garantir as melhores oportunidades para seguir saudável.
Se optar por não usar camisinha, aumente a frequência de exames e acompanhe regularmente sua saúde. A decisão final é sempre individual, desde que embasada, dialogada e acompanhada de informação de qualidade.
Se quiser aprender mais sobre novidades em prevenção, recomendo especialmente a leitura sobre prevenção, diagnóstico e tratamento atualizados do HIV.
Perguntas frequentes sobre PrEP e camisinha, prevenção combinada e ISTs
O que é a prevenção combinada PrEP e camisinha?
Prevenção combinada é o uso simultâneo de diferentes estratégias para reduzir o risco de infecções sexualmente transmissíveis e HIV. No caso da PrEP e da camisinha, isso significa tomar a medicação profilática contra HIV e, ao mesmo tempo, utilizar preservativo em todas as relações sexuais. Assim, amplia-se a proteção contra o HIV e também contra sífilis, gonorreia, clamídia, HPV, herpes e hepatites.
PrEP substitui totalmente a camisinha?
Não, a PrEP não substitui totalmente a camisinha. A PrEP protege exclusivamente contra o HIV, não tendo qualquer ação contra outras ISTs como sífilis, gonorreia, clamídia, HPV, herpes ou hepatites. Por isso, o ideal é manter o uso combinado para uma proteção abrangente.
Por que usar PrEP e camisinha juntos?
Usar PrEP e camisinha juntos maximiza a proteção e reduz o risco de múltiplas infecções. Enquanto a PrEP previne o HIV, a camisinha evita várias outras ISTs e também gestação não planejada. O uso combinado é uma estratégia reconhecida nos serviços de saúde do Brasil e em campanhas oficiais do Ministério da Saúde.
PrEP e camisinha previnem todas as ISTs?
Não, mesmo a combinação da PrEP e da camisinha não elimina 100% do risco de todas as ISTs. A camisinha reduz de forma significativa a transmissão da maioria das ISTs, mas algumas infecções podem ocorrer pelo contato pele a pele em áreas não protegidas, como o HPV e herpes. Apesar disso, o uso conjunto reduz ao máximo os riscos de infecção.
Onde conseguir PrEP e camisinha gratuitamente?
PrEP e preservativos estão disponíveis de forma gratuita pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Para acessar, basta procurar um serviço de referência em saúde sexual, infectologia ou CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), onde profissionais orientam sobre as opções de prevenção, incluindo a dispensação das medicações e preservativos. O Ministério da Saúde reforça a distribuição gratuita e contínua desses insumos em todo o país, principalmente em campanhas sazonais e grandes eventos, como o Carnaval.


