Ao longo da minha carreira médica, acompanhei de perto o impacto que a introdução da PrEP (profilaxia pré-exposição) trouxe para a prevenção do HIV. No entanto, percebo que muitos usuários da PrEP ainda têm dúvidas quanto à testagem e ao manejo das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), especialmente sífilis, clamídia e gonococo. O cuidado com essas infecções faz parte fundamental de uma abordagem preventiva verdadeiramente integrada.
O que é PrEP e como ela se encaixa na prevenção das ISTs?
PrEP significa utilizar medicamentos para evitar a infecção pelo HIV em pessoas que não vivem com o vírus, mas têm risco aumentado de exposição. Na prática clínica, vejo que a PrEP revolucionou a estratégia de proteção, principalmente em populações-chave. Porém, ela não oferece proteção contra outras ISTs, como sífilis, clamídia ou gonorreia (gonococo).
É essencial lembrar que a prevenção combinada inclui mais do que o uso de medicamentos; envolve testagem, diagnóstico precoce, tratamento adequado e orientação de práticas seguras.
No contexto da PrEP, essa abordagem integrada é ainda mais relevante, já que a redução do medo do HIV pode levar algumas pessoas a relaxar outros cuidados, como o uso de preservativos, ampliando o risco para as demais ISTs.
Por que a testagem é tão importante entre usuários de PrEP?
Uma dúvida que escuto com frequência nos consultórios é a razão pela qual a testagem para ISTs precisa ser tão regular em quem faz uso de PrEP. A resposta se baseia em fatos concretos:
-
O uso da PrEP reduz quase totalmente o risco de adquirir HIV, mas não atua sobre outras ISTs.
-
Pessoas que usam PrEP, por diversas razões, têm taxas mais altas de exposição a diferentes ISTs, especialmente sífilis, clamídia e gonococo.
-
A maioria das ISTs pode se apresentar de forma assintomática, e o rastreamento regular permite diagnóstico e tratamento precoces, evitando complicações e interrupção das cadeias de transmissão.
Diagnosticar cedo evita complicações e protege toda a comunidade.
Um exemplo marcante são os dados trazidos por um estudo piloto publicado pelo Ministério da Saúde, que encontrou taxas de 6,2% para clamídia e 6,4% para gonococo nas amostras testadas de usuários de PrEP e PEP, entre 2021 e 2022 (profissionais de saúde são orientados a ampliar a testagem para clamídia e gonococo para usuários(as) de PrEP e PEP).
Quais ISTs devemos rastrear na PrEP?
Na minha rotina, sempre insisto na importância de focarmos em três ISTs principais quando o paciente utiliza PrEP:
-
Sífilis
-
Clamídia
-
Gonococo (causador da gonorreia)
Claro, outras infecções como hepatites B e C, herpes, HPV também exigem atenção, mas sífilis, clamídia e gonococo têm taxas especialmente aumentadas nessa população, como já descrevi acima e demonstram pesquisas, como a tese da Universidade de São Paulo voltada aos usuários do Projeto Demonstrativo PrEP Brasil.
Por dentro das principais ISTs na PrEP
Acho fundamental descrever de maneira objetiva as características de cada infeção, porque esse conhecimento faz diferença na prevenção:
-
Sífilis: doença causada por bactéria, pode cursar de forma silenciosa, ou com feridas indolores, manchas cutâneas e sintomas sistêmicos. Se não tratada, avança para estágios graves.
-
Clamídia: infecção bacteriana que frequentemente não causa sintomas, mas pode gerar corrimento, dor ao urinar, ardor ou, em casos avançados, infertilidade.
-
Gonococo (gonorreia): costuma causar ardência, corrimento uretral, dor pélvica, mas pode passar despercebida em alguns casos, principalmente quando atinge região de garganta ou reto.
Em minha experiência, a ausência de sintomas é um dos maiores desafios para o diagnóstico precoce dessas infecções em usuários de PrEP.
Como funciona o rastreamento regular de ISTs para quem faz PrEP?
Costumo explicar aos meus pacientes que o rastreamento não é só um protocolo ou checklist. É um compromisso ativo com a própria saúde e de quem está ao redor. De acordo com as melhores práticas e as recomendações do Ministério da Saúde, a testagem molecular deve ser realizada de forma periódica, mesmo na ausência de sintomas.
Testar regularmente é cuidado, não desconfiança.
O intervalo recomendado mais habitual é a cada três meses, junto à renovação da receita da PrEP.
Quais exames realizar em cada caso?
Adoto no consultório um roteiro que varia de acordo com o perfil sexual do paciente, seus relatos e resultados de exames anteriores, mas basicamente inclui:
-
Testes rápidos para HIV e sífilis
-
Exames laboratoriais (sorologia) para sífilis
-
Coleta de amostras de urina, secreção de garganta e retal para detecção molecular (PCR) de clamídia e gonococo
-
Eventualmente incluir avaliação para hepatites B e C, se necessário
Muitos dos testes podem ser realizados sem necessidade de sintomas. Por exemplo, a clamídia e o gonococo na garganta ou reto, que só aparecem em exames dirigidos.
O que fazer diante do diagnóstico de IST em usuários de PrEP?
Receber um diagnóstico de IST pode assustar o paciente em um primeiro momento, mas sempre reforço: a maior parte das infecções tem tratamento eficiente e rápido, se iniciado precocemente. O tratamento adequado corta a cadeia de transmissão, protege a pessoa infectada e sua rede de contatos.
Tratamento da sífilis
A sífilis é tratada com penicilina benzatina, aplicada de acordo com o estágio da doença. Em situações específicas, alternativas podem ser usadas. A boa notícia é que a cura é alcançável, e o prognóstico é excelente quando tratada precocemente. Para saber mais, recomendo o conteúdo sobre cura e tratamento da sífilis.
Tratamento da clamídia e gonococo
A clamídia é tratada principalmente com antibióticos orais, e o gonococo exige geralmente a combinação de antibióticos injetáveis e orais, devido à resistência bacteriana. Ajusto o esquema conforme testes de sensibilidade podem indicar.
Após o início do tratamento, recomendo notificar parceiros e parceiras que tiveram contato íntimo recente, para testarem e tratarem, se necessário, interrompendo novas transmissões.
A importância do manejo integrado e abordagem combinada
O olhar multidisciplinar faz toda a diferença, principalmente quando combinamos estratégias. PrEP, testagem regular, acompanhamento médico, aconselhamento sexual, uso de preservativos e imunizações são parte do mesmo pacote de autocuidado.
-
Evito abordar prevenção de forma isolada. Uso o perfil de risco do paciente para decidir a rotina de acompanhamento, exames e orientações.
-
Insisto na educação sexual, no esclarecimento de sintomas, sinais de alerta e de como proceder caso surja algo fora do comum.
-
Valorizo o uso do preservativo como aliado na proteção de ISTs, mesmo para quem já faz PrEP.
Prevenção combinada: conceito que veio para ficar
Quando falamos em prevenção combinada, não estamos apenas somando produtos ou serviços. Trata-se da soma de conhecimento, acesso à saúde, acompanhamento regular e mudanças nos hábitos. Em minha atuação, vejo que o paciente informado cuida melhor de si e de seus parceiros.
Conhecimento é poder compartilhado na prevenção combinada.
Sífilis, clamídia e gonococo: desafios e soluções práticas
Gostaria de ressaltar pontos específicos para cada uma dessas ISTs, pois vejo na rotina do consultório alguns padrões que merecem destaque.
Sífilis: crescente no Brasil
O aumento de casos de sífilis preocupa profissionais e gestores de saúde. Entre os desafios, destaco:
-
Diagnóstico tardio por ser assintomática em muitos casos
-
Dificuldades de acesso ao teste na atenção primária em saúde
-
Estigma associado ao diagnóstico
Testar e tratar precocemente sífilis é estratégia central para interromper o ciclo de transmissão na população sexualmente ativa. No conteúdo específico sobre sintomas de sífilis em homens e mulheres aprofundo sinais de alerta.
Clamídia: silenciosa e frequente
A clamídia é sorrateira. Em relatos que escuto frequentemente, o paciente só descobre por meio dos exames feitos na rotina da PrEP, sem sentir nada. O perigo é a evolução para complicações reprodutivas sem que haja sintomas.
Na dúvida, teste, mesmo sem sintomas.
Gonococo: resistência em pauta
O tratamento do gonococo exige atenção especial, pela crescente resistência a antibióticos. Compro em minha atuação que tratar corretamente evita recaídas e impede o desenvolvimento de formas resistentes.
O papel do sistema de saúde e avanços no rastreamento
Nos últimos anos, testemunhei o avanço na disponibilidade dos testes moleculares de clamídia e gonococo, mesmo em centros públicos. O acesso à PrEP acompanhada de boa testagem é possível graças à incorporação de técnicas de biologia molecular nos serviços, recomendada também pelo Ministério da Saúde.
Segundo pesquisa do Projeto Demonstrativo PrEP Brasil, a alta prevalência dessas ISTs reforça o papel da rede de atenção, do agendamento regular de consultas e da realização de exames mesmo para pessoas com poucos sintomas.
Como acessar o serviço de testagem e tratamento?
Em cidades grandes e médias, há centros especializados em ISTs, hospitais universitários e clínicas particulares que oferecem testagem e acompanhamento. Além disso, serviços médicos especializados unem o conhecimento científico atualizado com orientação individualizada, fundamental para um cuidado humanizado.
Conclusão
Na minha prática clínica, percebo que a testagem e o tratamento das ISTs no contexto da PrEP são peças centrais para uma prevenção combinada verdadeira, capaz de barrar as infecções sexualmente transmissíveis e promover saúde integral a quem decide se cuidar. Adotar intervalos regulares de exames, manter acompanhamento com especialistas e buscar informação confiável fazem toda a diferença nos resultados.
Falo sempre com meus pacientes e colegas: integrar prevenção medicamentosa, testagem periódica e orientação contínua é a receita para mais liberdade, menos medo e saúde sexual plena.
Perguntas frequentes
O que é PrEP e para que serve?
PrEP é a sigla para profilaxia pré-exposição, uma estratégia que consiste no uso de medicamentos por pessoas que não têm HIV, mas possuem risco aumentado de exposição ao vírus. Seu objetivo é prevenir a infecção pelo HIV, protegendo quem se expõe a situações de risco, como relações sem preservativo, parcerias sorodiscordantes ou prática sexual com múltiplos parceiros. A PrEP não protege contra outras ISTs, por isso o acompanhamento médico e a testagem regular seguem sendo fundamentais.
Como é feita a testagem de ISTs na PrEP?
A testagem na PrEP é planejada para ser periódica, geralmente a cada três meses, mesmo que não haja sintomas. Inclui testes para HIV, sífilis (rápido e sorológico), além de coleta de urina, swab retal e de garganta para detecção de clamídia e gonococo por métodos moleculares. Dependendo do perfil do paciente, exames para hepatites B e C também podem ser indicados. Esse rastreamento regular é essencial para detectar precocemente as ISTs e tratar adequadamente.
Quais ISTs são mais comuns em usuários de PrEP?
As ISTs mais comuns em usuários de PrEP são sífilis, clamídia e gonococo (gonorreia). Estudos recentes mostram uma prevalência elevada dessas infecções nessa população, justificando a frequência maior de testagem e o reforço das ações preventivas. Outras ISTs, como hepatites virais e herpes, também podem aparecer, mas o foco principal do rastreamento são essas três mencionadas.
Onde posso fazer testagem para ISTs?
A testagem para ISTs pode ser realizada em serviços públicos de saúde, centros de testagem e aconselhamento (CTA), postos de saúde, clínicas especializadas e com médicos infectologistas. Muitas cidades contam com opções gratuitas e acompanhamento multidisciplinar, fundamental para uma abordagem eficiente e humanizada das ISTs. Clínicas privadas também realizam esses exames, muitas vezes com maior agilidade no retorno dos resultados.
PrEP substitui o uso de preservativo?
Não, a PrEP não substitui o uso de preservativo. A PrEP é altamente eficaz contra o HIV, mas não protege contra outras ISTs, como sífilis, clamídia e gonorreia. O uso combinado de PrEP e preservativo é a forma mais eficaz de reduzir ao máximo o risco de todas as ISTs e garantir proteção completa durante as relações sexuais.





