PrEP e resistência do HIV: o que acontece se eu me infectar usando o remédio

“Se eu pegar HIV na PrEP, o vírus fica resistente e não tem mais tratamento.” Metade dessa frase é verdade; a outra metade, não. Vou explicar o que a resistência é, quando acontece e por que ela não tira o seu tratamento.

Por que a PrEP pode gerar resistência

A PrEP tem dois remédios; o tratamento do HIV usa três. Dois não bastam para segurar um vírus que já está se multiplicando. Se a pessoa tem HIV e toma PrEP, o vírus sofre pressão parcial e seleciona mutações que escapam desses dois remédios. É a mesma lógica de tomar meio antibiótico.

Isso acontece em duas situações:

  1. Começar PrEP já com HIV (teste na janela imunológica). A principal.
  2. Pegar HIV durante a PrEP com uso irregular, e continuar tomando semanas antes do diagnóstico.

Com uso correto e testagem a cada 3 meses, a chance é muito pequena.

A mutação M184V

É a resistência mais comum ligada à entricitabina. Curiosidade útil: um vírus com M184V se multiplica pior e fica mais sensível ao tenofovir e ao zidovudina. Ou seja, a resistência mais frequente da PrEP é também uma das menos problemáticas.

Resistência ao tenofovir (K65R) é menos comum e também tem alternativas.

O tratamento continua possível

Os esquemas modernos — com dolutegravir, bictegravir, darunavir — funcionam mesmo com M184V e K65R. Ninguém fica sem tratamento por ter se infectado na PrEP. O que muda é que o esquema é escolhido com base na genotipagem, não no padrão.

E a injetável?

O cabotegravir tem uma particularidade: ao parar, os níveis baixos duram meses (a “cauda”). Infecção nesse período pode selecionar resistência à classe dos inibidores de integrase — que é a base dos tratamentos atuais. Por isso quem para a injetável e continua com exposição deve migrar para a oral e testar com frequência.

Como se evita

  • Teste de HIV antes de começar, e repetir em 4 semanas se houve exposição recente.
  • Teste a cada 3 meses durante a PrEP — teste sensível (4ª geração ou carga viral quando disponível).
  • Não começar PrEP com sintomas de infecção aguda (febre, garganta, ínguas, manchas).
  • Adesão — o que impede a infecção impede a resistência.
  • Planejar a saída da injetável.

Como é comigo

Sou infectologista em São Paulo (Itaim Bibi), com telemedicina para todo o Brasil. Peço o teste certo no momento certo, para que a PrEP nunca seja tomada por cima de uma infecção. E se acontecer, a genotipagem entra no primeiro dia e o esquema é montado com base nela.

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Perguntas frequentes

Resistência da PrEP inviabiliza o tratamento? Não. Há vários esquemas eficazes mesmo com as mutações típicas.

Posso transmitir um vírus resistente? Sim, e é um dos motivos de diagnosticar cedo e tratar.

Testes rápidos detectam infecção recente? Demoram mais que os de 4ª geração. Por isso, com exposição recente, uso teste de laboratório.

Quanto tempo depois da exposição o teste é confiável? 4ª geração: cerca de 4 semanas. Carga viral: 10 a 14 dias.

Se eu parar a PrEP e voltar, preciso de teste? Sim, sempre antes de retomar.

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Sobre o autor
Dr. Klinger Faico — Infectologista. CRM-SP 203431 · RQE 104115. Professor Adjunto da UNIFESP/Escola Paulista de Medicina. Título de especialista em Infectologia Hospitalar pela SBI. Consultório: Rua Joaquim Floriano, 820 – Itaim Bibi, São Paulo. Telemedicina para todo o Brasil.

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