Muita mulher — e muito homem trans, e muita pessoa que faz sexo vaginal — ouve falar da PrEP sob demanda e pergunta: “posso fazer assim também?” Não. E a razão é fisiológica, não burocrática.
O problema: a vagina concentra o remédio devagar
O tenofovir e a entricitabina precisam se acumular nas células da mucosa para bloquear o HIV. No reto, isso acontece rápido: níveis protetores em cerca de 2 horas com a dose dupla, e 7 dias com a diária. Na vagina e no colo do útero, a concentração sobe muito mais devagar: os níveis protetores só aparecem com cerca de 21 dias de uso diário.
Ou seja: dois comprimidos 2 horas antes do sexo vaginal não protegem. O remédio está no sangue, mas não está onde precisa estar.
E a margem de erro é menor
Para sexo anal, 4 comprimidos por semana já dão proteção alta (~96%). Para sexo vaginal, a proteção só é confiável com 6 a 7 comprimidos por semana. Menos que isso, cai rápido. Por isso a PrEP diária, para quem faz sexo vaginal, precisa de adesão quase perfeita.
Isso vale para quem?
- Mulheres cis: PrEP diária, sempre.
- Homens trans e pessoas não-binárias que fazem sexo vaginal: PrEP diária.
- Mulheres trans que fazem sexo anal: podem fazer sob demanda (a mucosa é retal), com atenção a hormônios.
- Homens cis que fazem sexo vaginal insertivo: os dados são menos claros para o pênis; a orientação é PrEP diária, com 7 dias para proteção.
O que fazer se você não quer comprimido todo dia
A PrEP injetável é a resposta. O cabotegravir a cada 2 meses tem excelente resultado em mulheres cis, e o lenacapavir a cada 6 meses teve zero infecções em mulheres no estudo PURPOSE 1. Se a diária não cabe na sua vida, a injetável é a alternativa — não a sob demanda.
E se eu já fiz sob demanda para sexo vaginal?
Não é motivo para pânico: o risco por ato de sexo vaginal é menor que por sexo anal, e a dose dupla dá alguma proteção parcial. Mas não conte com isso. Faça o teste de HIV no tempo certo (janela imunológica) e, daqui para a frente, use a diária ou a injetável.
Como é comigo
Sou infectologista em São Paulo (Itaim Bibi), com telemedicina para todo o Brasil. Atendo muitas mulheres em PrEP — casais sorodiferentes, relacionamentos abertos, profissionais do sexo, pessoas que simplesmente querem se proteger. Explico o porquê da diária, e quando a diária não funciona na vida da pessoa, monto a alternativa injetável.
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Perguntas frequentes
Por que a PrEP protege mais rápido no ânus do que na vagina? Diferenças de tecido e de concentração local do remédio. A mucosa retal acumula tenofovir muito mais rápido.
Mulher trans pode fazer PrEP sob demanda? Se faz sexo anal, sim. A hormonização não altera isso, mas vale conferir interações.
Quantos dias de PrEP diária até estar protegida? 21 dias para sexo vaginal.
Esqueci 2 dias de PrEP e faço sexo vaginal. Estou protegida? Provavelmente não de forma plena. Retome e, se houve exposição, converse sobre PEP.
PrEP injetável tem no SUS para mulheres? O cabotegravir foi incorporado ao SUS; a disponibilidade varia. Tem texto sobre a injetável.
Sobre o autor
Dr. Klinger Faico — Infectologista. CRM-SP 203431 · RQE 104115. Professor Adjunto da UNIFESP/Escola Paulista de Medicina. Título de especialista em Infectologia Hospitalar pela SBI. Página do tema: PrEP. Consultório: Rua Joaquim Floriano, 820 – Itaim Bibi, São Paulo. Telemedicina para todo o Brasil.


