Opções de PrEP disponíveis no SUS

Quando penso em prevenção ao HIV no Brasil, destaco imediatamente como as alternativas de profilaxia pré-exposição têm avançado dentro do Sistema Único de Saúde. Em meio a tantas dúvidas e mudanças rápidas na área da infectologia, acredito que um guia prático sobre formas de acesso, esquemas e particularidades das opções de PrEP é algo fundamental. Ao longo deste texto, vou compartilhar o que sei – apoiado por dados recentes, experiências de consultório e informações oficiais – sobre como funcionam as alternativas de PrEP no SUS, como utilizá-las e quais são os desafios para tornar a prevenção cada vez mais acessível e importante em nosso país.

Por que a PrEP é um marco na prevenção ao HIV?

Tive contato com inúmeros pacientes ao longo dos anos que carregavam o medo e o estigma da infecção pelo HIV. A meu ver, a chegada da PrEP ao SUS em dezembro de 2017 foi um divisor de águas. A PrEP permite que pessoas sem HIV, mas em risco aumentado, usem medicamentos antirretrovirais antes da exposição para evitar a infecção. Essa estratégia faz parte do esforço global para reduzir significativamente as novas infecções, tornando a prevenção mais ativa e menos dependente apenas da negociação do uso de preservativos, por exemplo.

Prevenir o HIV ficou mais acessível graças ao SUS.

Segundo a Secretaria de Saúde da Bahia, essa opção transformou os conceitos de cuidado e liberdade sexual com informação segura, cuidado e acompanhamentos regulares.

As principais modalidades de PrEP oferecidas no SUS

Durante as conversas que tenho com quem me pergunta sobre alternativas de profilaxia pré-exposição, percebo que ainda existe muita dúvida sobre as diferenças entre as modalidades. Para explicar melhor, separei as três principais formas atualmente articuladas no SUS:

  • PrEP oral diária (tenofovir + entricitabina, TDF/FTC)
  • PrEP sob demanda (esquema 2+1+1, específica para homens cisgênero)
  • PrEP injetável (cabotegravir de longa duração)

Cada uma dessas formas tem indicações, esquemas de uso e protocolos próprios de acompanhamento. Vou detalhar como funcionam e para quem são indicadas a seguir.

Frascos de PrEP e comprimidos sobre mesa

PrEP oral diária: o esquema tradicional

A PrEP em seu formato oral diário, usando a associação de tenofovir (TDF) e entricitabina (FTC), é considerada o padrão disponibilizado pelo SUS desde 2017. O usuário toma um comprimido ao dia, de preferência sempre no mesmo horário, sem necessidade de interromper ou alternar doses mesmo em períodos sem exposição ao risco.

Os principais grupos que costumam se beneficiar desse esquema são:

  • Homens que fazem sexo com homens
  • Pessoas trans
  • Profissionais do sexo
  • Pessoas com parceiros sorodiferentes (um tem HIV e outro não)

É importante lembrar que a indicação da profilaxia deve ser individualizada, sempre levando em conta as práticas, vulnerabilidades e condições de saúde. Saiba mais detalhes sobre os critérios de elegibilidade e as populações prioritárias.

PrEP sob demanda: prevenção pontual, flexível

No Brasil, a PrEP sob demanda é indicada para homens cisgênero que fazem sexo com homens, especialmente quando a exposição ao risco de HIV não é frequente. Esse esquema se baseia na chamada estratégia “2+1+1”.

  • Duas pílulas (tenofovir + entricitabina) entre 2 e 24 horas antes da relação sexual
  • Uma pílula 24 horas após a primeira dose
  • Outra pílula 24 horas depois da segunda dose

Essas quatro doses protegem durante e após o evento de exposição ao HIV. Se houver novos episódios de risco, as doses se prolongam (1 comprimido ao dia enquanto houver exposição).

Eu já acompanhei pacientes que se adaptaram bem a esse modelo, principalmente pela possibilidade de associar a prevenção à rotina de vida sexual. Porém, alerto que o regime sob demanda não é indicado para mulheres cis, pessoas trans, ou para quem tem práticas de risco frequentes e regulares, pois sua eficácia não foi estudada nesses grupos.

Mais detalhes sobre esse esquema e suas indicações estão neste guia completo sobre PrEP sob demanda.

PrEP injetável: o novo horizonte (cabotegravir de longa duração)

A PrEP injetável, com o medicamento cabotegravir de longa duração, representa o que há de mais moderno em profilaxia contra o HIV. Em muitos congressos e rodas de conversa da área, esse avanço tem gerado expectativa pela comodidade de espaçar as doses e reduzir esquecimentos, já que a aplicação é feita a cada dois meses, por via intramuscular.

No contexto do SUS, a inclusão dessa modalidade foi avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (CONITEC), que recomendou a incorporação, e aguarda a implementação prática em todo o país. Essa novidade pode representar ganhos expressivos, principalmente para quem não consegue aderir à rotina do tratamento oral diário ou apresenta reações adversas aos esquemas já disponíveis.

Lembro que é fundamental acompanhar as atualizações do Ministério da Saúde sobre a oferta do cabotegravir. Quando ele estiver plenamente disponível, haverá critérios de indicação, locais específicos de aplicação e protocolos de acompanhamento igualmente rigorosos. No cenário internacional, a eficácia vem sendo comprovada desde os principais estudos publicados.

Como acessar a PrEP pelo SUS na prática?

Uma das dúvidas que mais ouço nos meus atendimentos é sobre o caminho para conseguir a PrEP de forma gratuita pelo sistema público.

No Brasil, a PrEP está acessível a qualquer pessoa com risco aumentado para HIV, basta procurar um serviço de referência habilitado. Esses serviços geralmente são chamados de SAE (Serviço de Atendimento Especializado), CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) ou Unidades Básicas de Saúde (UBS) que tenham programas de profilaxia.

Procure o ponto de cuidado mais próximo e informe-se.

  • Você pode ligar gratuitamente para o Disque Saúde 136 para saber onde encontrar uma unidade credenciada na sua cidade ou região
  • Na maioria dos estados, grandes municípios contam com ao menos um SAE ou CTA
  • Levando um documento pessoal, não é obrigatório cartão SUS, mas pode agilizar o processo
  • Após uma avaliação completa, os exames de rastreamento são realizados antes da prescrição

Além disso, em áreas onde o acesso presencial é difícil, a telemedicina vem sendo utilizada para orientações, triagem inicial e acompanhamento. Já vi relatos positivos de pessoas que conseguiram iniciar a profilaxia com o suporte virtual de uma equipe multidisciplinar. Essa abordagem, apesar de ainda limitada em determinadas regiões, tem bastante potencial para auxiliar quem vive distante dos grandes centros urbanos.

Unidade de Saúde pública no Brasil com pessoas na entrada

Exames obrigatórios e acompanhamento regular: etapas fundamentais

Começar a PrEP é apenas a primeira parte de um processo bem estruturado para garantir não só a prevenção do HIV, mas a saúde global da pessoa. O acompanhamento regular, incluindo exames de laboratório e avaliações clínicas, é obrigatório para pessoas em PrEP pelo SUS.

Os principais pontos desse protocolo são:

  • Testagem para HIV: antes do início e a cada 3 meses durante o uso
  • Função renal: avaliada periodicamente, pois o tenofovir pode afetar os rins em algumas pessoas
  • Hepatites B e C: realizar sorologias para monitorar eventuais infecções
  • Testes para sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs): realizados regularmente
  • Acompanhamento clínico: para reforçar adesão, esclarecer dúvidas e monitorar possíveis efeitos colaterais

Quem faz PrEP em unidades do SUS tem acesso gratuito a todos esses exames, que são fundamentais para detectar precocemente qualquer alteração, ajustar medicamentos se necessário e garantir o máximo de eficácia na prevenção combinada do HIV.

Desafios e barreiras no acesso à PrEP pelo SUS

Mesmo com todo o avanço e o compromisso governamental em ampliar as opções de PrEP no SUS, existem desafios evidentes para garantir acesso a todos que desejam se proteger. Falo com muita franqueza sobre três aspectos que vejo ainda como barreiras hoje:

  • Falta de informação: Apesar das campanhas de saúde, muitas pessoas desconhecem o que é PrEP ou acreditam tratar-se de tratamento apenas para quem já tem HIV. O esclarecimento correto, em linguagem simples, ainda é um ponto que precisa avançar, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
  • Estigma: Frequentemente, percebo o receio de buscar serviços de saúde e falar sobre comportamento sexual, seja por medo de julgamento ou por experiências negativas prévias. Trabalhar a escuta qualificada, o acolhimento e o respeito são pilares para mudar essa realidade.
  • Dificuldade em cidades pequenas: O SUS nem sempre tem oferta estruturada de PrEP em municípios pequenos e áreas rurais. Às vezes, é necessário se deslocar até outra cidade, o que nem sempre é viável. Por isso, a valorização das estratégias de telemedicina pode colaborar para superar essa limitação.

Evidencio que, de acordo com dados do Ministério da Saúde, o número de usuários de PrEP no Brasil dobrou em menos de dois anos, chegando a 104 mil pessoas em 2024. Isso mostra que, apesar dos desafios, existe uma crescente busca e reconhecimento da estratégia.

Adesão, continuidade e desafios reais do dia a dia

Em minha experiência, a adesão à PrEP é impactada por fatores como esquecimento, mudanças de rotina, pausas motivadas por férias, rompimento de vínculos afetivos e até trocas frequentes de unidades de saúde. Vi também o aumento no número de pessoas que interromperam o uso, algo relatado em dados recentes do Ministério da Saúde: enquanto o uso regular aumentou 28,1% em 2025, o número de tratamentos descontinuados cresceu 41,6%.

Por isso, sempre falo sobre a importância do acompanhamento próximo, de espaços seguros para dialogar sobre dúvidas ou dificuldades e para revisar se a PrEP ainda faz sentido naquele momento de vida. A prevenção não é uma medida estática, mas um cuidado contínuo, que pode ser adaptado conforme as necessidades e realidades de cada um.

Consulta de telemedicina para PrEP no laptop

Prevenção combinada e complementaridade das estratégias de cuidado

Sempre insisto com meus pacientes e contatos que a PrEP não substitui outras medidas de prevenção. Aliás, a estratégia de prevenção combinada é um ponto muito reforçado pelos protocolos do Ministério da Saúde. Associar profilaxia pré-exposição, preservativos, testagem regular e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis é uma abordagem sinérgica que amplia os resultados positivos em saúde sexual.

Em situações de risco já ocorrido (por exemplo, rompimento de preservativo, relação não planejada), a PEP – profilaxia pós-exposição – está disponível no SUS como outra alternativa imediata, que deve ser iniciada até 72 horas após a exposição. Se deseja entender como funciona, recomendo este conteúdo sobre PEP.

Não esqueço de ressaltar também que, além das questões medicamentosas, cuidar da saúde mental, do autocuidado e do respeito à individualidade compõem a base de qualquer ação preventiva bem-sucedida.

Panorama atual e futuro das opções de PrEP pelo SUS

O Brasil é referência mundial por ter acesso universal e gratuito à PrEP dentro do sistema público. As sucessivas ampliações de oferta, como PrEP diária, sob demanda e os estudos sobre a incorporação da modalidade injetável, mostram o compromisso em fortalecer caminhos eficazes contra o HIV.

Até 2025, segundo informações do Ministério da Saúde, mais de 141 mil unidades de PrEP foram dispensadas ao longo do ano. Conforme a oferta de cabotegravir avançar e a expansão da telemedicina se consolidar, a expectativa é que barreiras históricas possam ser superadas, ampliando ainda mais o alcance das estratégias de profilaxia.

E para quem quer se aprofundar ainda mais nesse tema, recomendo este conteúdo sobre prevenção de doenças infecciosas e esta página com informações sobre serviços de profilaxia pré-exposição no SUS.

Conclusão

Minha percepção acompanhando pessoas no cuidado diário é que a oferta de diferentes modalidades de PrEP no SUS demonstra uma virada de chave na prevenção ao HIV no Brasil. O acesso está mais próximo, as alternativas se ampliaram e, embora desafios persistam, o resultado já começa a se refletir claramente na redução do número de novas infecções e maior liberdade para escolhas conscientes e seguras.

PrEP não é apenas um medicamento: é um direito, uma ferramenta de autonomia e uma ponte para uma vida sexual mais saudável.

Se você tem dúvidas, quer avaliar se é candidato à PrEP, ou busca orientação detalhada, converse com um serviço habilitado na sua região. Caminhar ao lado de profissionais e de informação de qualidade faz toda diferença nesse processo!

Perguntas frequentes

Quais tipos de PrEP estão disponíveis no SUS?

Atualmente, o SUS oferece três modalidades principais de PrEP: a PrEP oral diária, usando a combinação de tenofovir e entricitabina (TDF/FTC); a PrEP sob demanda, indicada especialmente para homens cisgênero que fazem sexo com homens, seguindo o esquema 2+1+1; e, em fase de implementação, a PrEP injetável com cabotegravir de longa duração, que será aplicada a cada dois meses. É importante lembrar que cada uma tem indicações específicas.

Como conseguir PrEP gratuitamente no Brasil?

Para acessar a PrEP gratuitamente pelo SUS, basta procurar um Serviço de Atendimento Especializado (SAE), Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) ou uma Unidade Básica de Saúde habilitada. Você pode ligar para o Disque Saúde 136 e perguntar qual serviço mais próximo está disponível na sua cidade. Na primeira consulta, serão realizados exames e uma avaliação clínica antes de iniciar o uso da medicação.

Qual é a diferença entre PrEP diária e sob demanda?

A PrEP diária consiste na ingestão de um comprimido por dia, de forma contínua, ideal para quem tem exposições frequentes ao HIV ou prefere uma estratégia fixa e sem variações. Já a PrEP sob demanda é indicada para quem tem relações esporádicas, sendo feita em um esquema de quatro doses (2+1+1) em torno do momento de risco. Lembrando que a sob demanda é recomendada apenas para homens cisgênero que fazem sexo com homens.

PrEP do SUS tem efeitos colaterais?

A PrEP pode, sim, causar efeitos colaterais leves, principalmente no início, como náusea, dor de cabeça ou desconforto gastrointestinal. No entanto, a maioria dos efeitos costuma ser passageira. É raro ocorrerem alterações nos rins, por isso, o monitoramento é feito com exames regulares de função renal. Havendo sintomas persistentes, é importante comunicar rapidamente à equipe de saúde.

Quem pode usar PrEP pelo SUS?

No SUS, a PrEP está indicada para pessoas com risco aumentado de infecção pelo HIV, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo e parceiros sorodiferentes. A avaliação da indicação se baseia em práticas, histórico de exposições e análise individual durante a consulta inicial. Verifique com o profissional se você se enquadra nos critérios de elegibilidade.