Ao longo dos anos, percebi que muita gente ainda tem dúvidas sobre como funciona a prevenção do HIV, especialmente quando falamos sobre profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP. Meu objetivo aqui é desmistificar o tema, trazer dados recentes, comentar sobre eficácia, explicar como acessar o tratamento e, claro, destacar pontos práticos para quem busca mais saúde sexual e autonomia.
O que é a profilaxia pré-exposição?
A prevenção do HIV sempre foi um tema fundamental para mim. A terapia pré-exposição representa um avanço importante. A PrEP consiste em tomar medicamentos antivirais antes de se expor ao vírus, reduzindo drasticamente as chances de infecção pelo HIV.
Atualmente, a PrEP é uma combinação de dois medicamentos: tenofovir e entricitabina. Estes bloqueiam as principais vias que o HIV usa para infectar as células do corpo. Segundo dados do Ministério da Saúde, a estratégia se mostra especialmente útil para pessoas com maior risco de exposição ao HIV, como homens gays, bissexuais, mulheres trans e profissionais do sexo, mas não se resume a eles.
Prevenir é sempre melhor do que tratar depois.
O que mais me chama atenção na prática clínica é o impacto na vida das pessoas. Vejo diariamente o aumento da confiança e o alívio ao saber que existe mais uma ferramenta confiável de prevenção.
Os tipos de uso: PrEP diária e PrEP sob demanda
Existem dois modos principais de tomar a profilaxia pré-exposição. Cada uma tem indicações específicas, dependendo do padrão de exposição ao HIV e do perfil da pessoa.
- PrEP diária: Tomada uma vez ao dia, indicada para quem possui exposições frequentes ao HIV. Essa é a prescrição mais comum na maioria dos serviços.
- PrEP sob demanda: Consiste em tomar comprimidos em horários específicos antes e depois das relações sexuais. É destinada principalmente a homens cisgêneros gays, bissexuais, homens que fazem sexo com homens, pessoas não binárias e mulheres trans que não usam hormônios à base de estradiol (entenda mais sobre PrEP sob demanda).
A escolha entre essas opções deve ser individualizada, baseada no perfil de risco e na rotina da pessoa.
Já acompanhei casos de pessoas que adotavam inicialmente a PrEP diária, mas ao ajustar o comportamento sexual, migraram para o uso sob demanda com orientação médica, ganhando mais autonomia e conforto.

Quem pode utilizar a profilaxia pré-exposição?
No início, era necessário preencher uma série de critérios para acessar a PrEP, mas atualmente a indicação é mais ampla. Recomendo PrEP para pessoas que, na avaliação clínica, apresentem exposição recorrente ao risco de HIV, seja por relações sexuais sem preservativo, múltiplos parceiros, parceria sorodiferente (casos em que um parceiro vive com HIV e o outro não) ou uso compartilhado de seringas.
Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de pessoas utilizando PrEP quase dobrou de 2022 a 2024 no Brasil, alcançando 104 mil usuários. Isso mostra como a estratégia é abraçada por diferentes públicos (conheça mais perfis em quem pode usar PrEP).
O critério básico é: se há risco recorrente de exposição ao HIV, vale conversar com profissional de saúde e avaliar a indicação.
Exames necessários antes de iniciar PrEP
Um erro comum é achar que basta pedir o medicamento e começar a tomar. Sempre insisto que, antes da primeira prescrição, é necessário realizar uma consulta detalhada e alguns exames:
- Teste para HIV (para excluir infecção prévia não diagnosticada);
- Função renal (PrEP pode interferir em pessoas com doenças renais);
- Hepatites virais (principalmente B e C);
- Testes para outras ISTs, como sífilis, gonorreia e clamídia;
- Sorologia para gravidez em mulheres cisgênero em idade reprodutiva.
Além disso, costumo pedir exame físico, entender hábitos e dialogar sem preconceitos sobre rotina sexual ou outros fatores de exposição.
PrEP é prevenção, não diagnóstico.
Nunca se deve iniciar o uso se a pessoa já estiver infectada pelo HIV, pois isso pode induzir resistência ao tratamento.
Como funciona a PrEP na rotina?
PrEP diária requer disciplina: um comprimido todos os dias, de preferência no mesmo horário. No esquema sob demanda, o protocolo consiste em duas doses entre 2 e 24 horas antes da relação sexual, seguidas de uma dose ao dia nos dois dias subsequentes (saiba mais detalhes).
Existem dúvidas frequentes sobre o início do efeito protetor. Após sete dias de uso contínuo, a PrEP já atinge níveis adequados de proteção, principalmente em mucosa retal. No caso do sexo vaginal, orienta-se um tempo maior (21 dias) para proteção ideal.
Esquecimentos acontecem, claro. Caso a pessoa perca uma dose, pode tomar assim que lembrar. Se esquecer por mais de um dia, mantenho a orientação de retomar o uso normal e redobrar a atenção.

Por que a adesão é tão relevante?
Confio muito em dados de pesquisas (orbitando 92% de redução de risco entre pessoas que usam corretamente), mas observo no dia a dia que a maior barreira ainda é manter o uso regular.
Segundo levantamento do Ministério da Saúde, 30% das pessoas pararam de usar a PrEP em 2024, muitas vezes por descuido, desinformação ou acesso difícil. Acompanhamento contínuo com profissional especializado faz diferença, seja por suporte ao uso, renovação de exames ou até apoio psicológico.
Permanecer em acompanhamento não é só questão de segurança, mas também de perceber com antecedência possíveis efeitos adversos ou adaptar a estratégia à vida do paciente.
Diferenciando PrEP de PEP
Encontro bastante confusão entre PrEP e PEP. Enquanto PrEP previne o HIV antes da exposição, PEP é indicada após uma exposição potencial ao vírus, devendo ser iniciada até 72 horas depois do risco. São estratégias complementares, mas servem a momentos distintos.
A PEP é um ciclo curto de medicação (28 dias) usado em situações emergenciais, como acidentes com material perfurante ou relação sexual desprotegida e inesperada. A avaliação do risco e a indicação sempre devem ser feitas por profissional capacitado (confira os serviços de PrEP).
PrEP previne outras ISTs ou gravidez?
Apesar da altíssima eficácia quanto ao HIV, a PrEP não protege contra sífilis, gonorreia, clamídia, HPV, hepatites virais ou gravidez. Por isso, sempre oriento que, mesmo fazendo uso da PrEP, o preservativo segue sendo importante em relações sexuais, especialmente com novos parceiros.
No consultório vejo pessoas que optam por não usar mais preservativo após iniciar a PrEP. O diálogo individualizado é chave para alinhar expectativas e reforçar o cuidado com outras infecções.
Situações especiais: gravidez, pessoas trans e uso contínuo
A profilaxia pode ser oferecida a mulheres que engravidam durante o uso, desde que haja acompanhamento especializado para avaliar riscos e benefícios, assim como controle rigoroso da função renal.
No caso de mulheres trans em terapia com estradiol, a PrEP sob demanda ainda não é recomendada devido à ausência de estudos robustos, sendo preferível o esquema diário caso haja indicação.
Adaptações podem ser necessárias: revisão dos riscos, do uso de hormônios, e do acesso à saúde integral. Procuro criar um ambiente acolhedor, possibilitando trocas sinceras e decisões conjuntas.
Efeitos colaterais e riscos do uso
Grande parte dos usuários não sente nada. Quando ocorrem efeitos adversos, geralmente são leves e transitórios, como náuseas, pequenas dores abdominais ou sensação de mal-estar. Raramente, pode haver impacto nos rins, daí a necessidade de monitoramento laboratorial regular.
Em minha experiência, menos de 10% dos pacientes relatam efeitos que motivam a suspensão do tratamento. Destaco sempre: não interrompa sem conversar com o especialista.
Quando e como interromper a PrEP com segurança?
Quando há mudança de contexto de risco – novo relacionamento estável, diminuição das exposições, mudança de rotina –, pode ser indicada a suspensão da profilaxia, sempre sob orientação médica.
Sugiro o retorno para avaliação ao menos 28 dias após o término da exposição, repetindo os exames, para encerrar o ciclo de maneira segura.
Como acessar os serviços de PrEP no Brasil?
A rede pública de saúde oferece a PrEP sem custos nos serviços habilitados de atendimento especializado à população. Nos últimos anos, o acesso ficou mais simples, e a quantidade de serviços aumentou consideravelmente (conheça mais detalhes sobre acesso).
Para acompanhar o cenário nacional em tempo real, recomendo o Painel de Monitoramento PrEP, que mostra onde encontrar atendimento, números de usuários, entre outros dados úteis.
Para quem busca informações sobre o diagnóstico e o tratamento do HIV, recomendo acessar o conteúdo sobre infecção pelo vírus HIV para obter mais orientações.
Conclusão
Ao longo do tempo, vi pacientes transformarem o medo em cuidado, o tabu em conversa aberta. A profilaxia pré-exposição é mais do que uma medicação: é autonomia, ciência a serviço da vida sexual e um passo decisivo para controlar o HIV.
Priorizo, acima de tudo, o atendimento individualizado. Cada trajetória é única, e o diálogo sincero com o paciente sempre gera melhores resultados. Frente à complexidade do HIV e das diferentes realidades, a prevenção combinada é a resposta: informação, teste regular, acompanhamento médico e respeito às escolhas de cada um.
Cuidar de si é um ato de coragem e liberdade.
Perguntas frequentes sobre profilaxia pré-exposição ao HIV
O que é profilaxia pré-exposição ao HIV?
Profilaxia pré-exposição ao HIV é uma estratégia preventiva em que a pessoa toma, de forma regular, medicamentos antivirais antes de situações de risco, com o objetivo de evitar a infecção pelo HIV. Os medicamentos usados atuam bloqueando as vias pelas quais o vírus chega às células, tornando a transmissão muito menos provável.
Como funciona o uso da PrEP?
A PrEP pode ser utilizada diariamente ou sob demanda, conforme o perfil da pessoa e a frequência em que ocorre a exposição ao risco. No uso diário, basta tomar um comprimido todos os dias. No esquema sob demanda, a administração é feita em doses antes e após a relação sexual. A proteção acontece porque os remédios alcançam níveis suficientes na corrente sanguínea para impedir a entrada e multiplicação do HIV.
Quem pode tomar a profilaxia pré-exposição?
A indicação da PrEP é para pessoas que apresentam risco significativo de se expor ao HIV. Isso inclui, entre outros, quem mantém relações sexuais sem preservativo, pessoas com múltiplos parceiros, quem tem parceria sorodiferente e quem faz uso de drogas injetáveis. É sempre necessário passar por avaliação clínica e realizar exames antes de iniciar o uso (saiba mais sobre quem pode usar).
A PrEP é segura e tem efeitos colaterais?
A PrEP é considerada segura pela comunidade científica e pelos órgãos de saúde. A maioria das pessoas não sente qualquer efeito adverso. Quando ocorrem, eles costumam ser leves e passageiros, como náuseas ou desconforto abdominal. O acompanhamento médico regular garante mais segurança durante todo o uso.
Onde posso conseguir a PrEP no Brasil?
A PrEP está disponível gratuitamente em unidades especializadas do Sistema Único de Saúde (SUS) e também em parte da rede privada, mediante prescrição médica e monitoramento clínico. Para saber onde buscar atendimento em sua região, consulte o Painel PrEP do Ministério da Saúde ou procure informações em serviços especializados da sua cidade.


