Neste artigo, quero compartilhar percepções e reflexões muito comuns entre pessoas que utilizam PrEP (profilaxia pré-exposição) e também observadas em minha prática clínica. Os desafios para manter a regularidade e continuidade do uso deste método de prevenção do HIV são reais, multifatoriais e dependem do contexto de vida de cada pessoa. Entender os motivos que levam à descontinuidade, identificar barreiras enfrentadas por grupos distintos e pensar juntos em estratégias mais humanas e realistas para superar tais obstáculos são tarefas urgentes. Mais do que nunca, precisamos falar sobre experiência, comportamento, acolhimento e ciência, de forma clara e sem tabus.
Por que manter a PrEP é tão desafiador?
Já conversei com centenas de usuários de PrEP, cada um com sua trajetória. O que salta aos olhos é que aderir às consultas, retornar periodicamente para exames e, acima de tudo, tomar o medicamento todos os dias ou na estratégia sob demanda (como explico aqui) envolve uma mistura complexa de disciplina, compreensão dos benefícios e adaptação à rotina.
A rotina, muitas vezes, é o maior desafio de quem decide iniciar a PrEP.
Não é só pegar um remédio e tomar. É repensar hábitos, lembrar de horários, lidar com julgamentos, e vencer a resistência interna, tudo isso tentando equilibrar saúde sexual, relações afetivas e estigma.
Dificuldade em manter o uso diário
Uma das principais dificuldades que vi ao longo dos anos é o esquecimento ou cansaço de cumprir a rotina diária. Muitos usuários relatam “pane” na rotina em feriados, viagens ou períodos de maior estresse pessoal ou profissional.
Outro ponto é o chamado “efeito abandono silencioso”. A pessoa começa empolgada, mas ao se sentir “protegida” ou após um período sem relações de risco, vai esquecendo de tomar, até deixar totalmente de lado. O próprio sucesso da estratégia de prevenção pode gerar certa falsa sensação de invencibilidade, diminuindo o senso de urgência e consequente abandono sem comunicação com a equipe de saúde.
Fatores emocionais e sociais
No consultório, observo bastante o peso das emoções e do contexto social:
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Vergonha de falar sobre PrEP com amigos, familiares ou parceiros(as)
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Medo do preconceito ao buscar atendimento ou retirar o medicamento
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Sensação de solidão ou falta de apoio da rede social
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Desinformação sobre a real importância de manter a regularidade
Muitas vezes, ao não encontrar acolhimento, o usuário acaba se afastando do acompanhamento ou simplesmente decide parar, por não enxergar sentido naquele esforço solitário.
Aspectos comportamentais
Durante atendimentos, noto que existem outros pontos que sabotam a continuidade:
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Rotinas irregulares de sono
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Consumo de álcool ou outras substâncias que interferem na memória ou disciplina
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Baixo entendimento dos riscos reais do HIV versus a vulnerabilidade pessoal
Manter a adesão é sempre um desafio comportamental, especialmente quando a prevenção depende de condutas diárias e conscientes.
Motivos clínicos para descontinuação
Nem todos os motivos para parar a PrEP estão ligados à disciplina ou ao contexto social. Algumas pessoas relatam:
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Efeitos colaterais, sobretudo nos primeiros dias de uso, como desconforto abdominal ou náuseas;
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Mudanças no perfil da vida sexual, tornando-se uma escolha consciente e planejada de interromper o uso;
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Vontade de engravidar, o que gera dúvidas ou receios quanto à continuidade e segurança do uso durante a gestação;
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Preocupações com a função renal (apesar da excelente tolerabilidade em geral, é um medo recorrente).
É nesse cenário de múltiplos fatores que a descontinuação costuma acontecer, às vezes dialogada com profissionais, mas muitas vezes de forma isolada e silenciosa.
Barreiras específicas enfrentadas por diferentes grupos
Os desafios são ainda mais intensos entre alguns grupos mais expostos ao HIV, cada qual com suas demandas e obstáculos próprios. Ao longo dos anos, observei tendências bastante claras, que fazem toda diferença na abordagem clínica e na comunicação.
Homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens
Este é o grupo majoritário na indicação da PrEP, mas é também onde o estigma se mostra mais presente. Já ouvi em conversas relatos sobre:
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Vergonha de retirar o medicamento em serviços por medo de ser identificado;
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Todos os olhares recaírem sobre o “potencial comportamento” sexual;
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Rejeição em aplicativos após compartilhar que faz uso da PrEP, dado o preconceito ainda existente até mesmo na própria comunidade;
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Convencimento interno de que “não é mais necessário”, resultado da diminuição de episódios sexuais considerados de risco.
Percebo a importância da escuta ativa. Sentir-se incluído e sem julgamentos faz toda a diferença para persistir na prevenção.
Pessoas trans
Experiências relatadas por pessoas trans mostram barreiras adicionais. Muitos destes desafios envolvem:
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Dificuldade de acesso a serviços sensíveis a demandas específicas;
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Insegurança sobre possíveis interações com hormônios, ainda que a evidência científica aponte para a segurança das associações;
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Violência institucional ou atendimento desrespeitoso nos serviços de saúde;
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Sensação de invisibilidade ou não pertencimento nas campanhas sobre PrEP.
Ao ouvir estas vozes, compreendo a dimensão da vulnerabilidade e da necessidade de um acolhimento mais próximo e informado.
Mulheres cisgênero
Muitas mulheres acreditam, erroneamente, não serem público da PrEP. Daí a baixa procura e consequente dificuldade em manter a prevenção.
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Há dúvidas quanto à segurança dos medicamentos em caso de gravidez ou amamentação;
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Desconhecimento sobre o real risco de exposição;
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Falta de campanhas de divulgação voltadas a este público;
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Senso de isolamento ou medo de julgamento em conversar com parceiros ou equívoco de que apenas “grupos específicos” deveriam utilizar.
PrEP não tem identidade de público-alvo: prevenção deve ser direito de todos.
Jovens e adolescentes
Tenho recebido, cada vez mais, jovens interessados em prevenção. No entanto, os desafios são outros:
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Dificuldade em buscar orientação sem suporte da família ou adulto responsável;
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Insegurança e confusão sobre a indicação;
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Falta de privacidade para armazenar o medicamento;
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Desinformação sobre direitos e confidencialidade do atendimento.
Essa camada etária, tão vulnerável ao HIV, merece um olhar respeitoso e empático.
Pessoas em situação de vulnerabilidade social
Pessoas sem moradia, em situação de rua ou com dificuldades econômicas enfrentam:
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Impossibilidade de estocar o medicamento com segurança;
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Dificuldade para comparecer a consultas regulares;
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Falta de recursos para transporte;
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Barreiras linguísticas ou culturais em populações migrantes.
Para muitos, manter a PrEP diariamente é um desafio logístico, não de vontade ou falta de informação.
Estratégias práticas para melhorar a manutenção da PrEP
Diante de tantos obstáculos e da complexidade do tema, pensar em estratégias de apoio contínuo é fundamental. Sempre busco adaptar as orientações de acordo com a rotina de cada paciente, criando caminhos reais, e não idealizados, para fortalecer a permanência na prevenção.
Individualizando o acompanhamento e acolhendo as dificuldades
Cada pessoa tem seus próprios motivos para precisar da PrEP e, também, suas formas particulares de vencer os desafios diários. Por isso, sempre procuro:
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Escutar sem julgamentos;
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Personalizar o acompanhamento, respeitando preferências e contextos;
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Repassar, em consulta, possíveis estratégias de integração do medicamento à rotina;
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Oferecer diferentes formas de lembrar (aplicativos, alarmes, agenda física);
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Sugerir a adesão à PrEP sob demanda, quando aplicável, como detalho em um conteúdo específico;
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Reforçar que a suspensão do uso deve ser sempre dialogada, nunca silenciosa ou abrupta, dada a importância do manejo adequado nos exames e acompanhamento clínico.
Educação continuada sobre prevenção combinada
Ser didático, trabalhar conceitos e reforçar que a prevenção não é apenas remédio é essencial. Sempre ensino que existem múltiplos recursos:
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PrEP diária;
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PrEP sob demanda;
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Pep (profilaxia pós-exposição);
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Uso de preservativos;
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Acompanhamento de exames regulares, conforme frequente em explicação detalhada;
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Inovação com possibilidades como a PrEP injetável, que é tema de avanços e, segundo reportagem sobre o cabotegravir de ação prolongada, pode facilitar bastante a vida de quem tem dificuldades diárias de adesão.
Cada pessoa pode construir seu próprio projeto de prevenção.
Uso de tecnologias para auxiliar a rotina
Aplicativos de saúde, alarmes no celular e grupos de troca entre usuários são aliados bastante úteis e práticos. Muitas vezes, oriento a testar diferentes recursos para encontrar aquele que mais faz sentido na dinâmica diária. Não se trata de “mandar tomar remédio”, mas de ajudar a lembrar e tornar o processo menos pesado, quase intuitivo.
O celular pode ser aliado da saúde: configure alarmes, adote aplicativos, peça ajuda de quem se importa com você.
Recebo com frequência relatos de que esses pequenos ajustes mudam o jogo.
Diálogo transparente nas consultas
Sempre digo: “Você não precisa ter vergonha de falhar ou de esquecer. O mais importante é não abandonar o acompanhamento e buscar ajuda.” Nas consultas, o espaço deve ser seguro para dúvidas, inclusive para falar sobre vontades de parar ou sobre mudanças no comportamento sexual.
Isso faz toda diferença para evitar decisões solitárias e permitir um acompanhamento clínico de qualidade, inclusive no manejo de possíveis efeitos colaterais ou dúvidas sobre riscos e benefícios.
Fortalecimento das redes de apoio
Faço questão de reforçar que, para muita gente, o segredo da permanência na PrEP é procurar apoio, seja de amigos, familiares ou de comunidades. A troca de experiências normaliza o uso, combate o estigma e, principalmente, lembra que ninguém está sozinho nessa jornada.
Combate ao estigma e comunicação sem preconceitos
Outro ponto fundamental, que percebo diariamente, é a necessidade de desconstruir ideias ultrapassadas sobre prevenção do HIV. Prevenção é cuidado consigo e com o outro, nunca sinal de promiscuidade ou julgamento moral.
Trabalhar a comunicação, tanto institucional quanto pessoal, ajuda significativamente. Não raro vejo pessoas que deixam de iniciar ou manter a PrEP porque internalizaram discursos negativos vindos de conhecidos, familiares ou até mesmo profissionais de saúde. Reorientar esse olhar é parte importante do enfrentamento dos desafios. Em conteúdos que produzo, sempre reforço essa linguagem inclusiva e de acolhimento, como pode ser visto em materiais sobre prevenção.
Precisamos lembrar, constantemente, que:
Cuidar da saúde sexual é direito de todos e deve ser pauta de respeito e acolhimento, jamais de vergonha ou constrangimento.
O papel da inovação: PrEP injetável e novas possibilidades
Tenho acompanhado, com entusiasmo, as recentes discussões sobre possibilidades de prevenção além da pílula diária. O cabotegravir, aprovado pela Anvisa, surge como alternativa injetável de longo prazo, trazendo um horizonte diferente para pessoas com real dificuldade em manter o uso oral, ou simplesmente para quem prefere menos intervenções frequentes.
Segundo dados de reportagem sobre o cabotegravir, essa inovação é especialmente benéfica e pode aumentar ainda mais a adesão aos programas preventivos.
A possibilidade de realização da PrEP em injeção, a cada dois meses, vem para resolver uma das barreiras estruturais mais frequentes mencionadas por quem não se adapta ao uso diário. O avanço científico é uma conquista também no campo da adesão: multiplica opções e respeita as particularidades de cada um.
Papo reto: o que aprendi ouvindo pacientes
Entre tantas histórias, gosto de compartilhar o que mais ouvi dos próprios usuários:
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Ter o acompanhamento de um profissional que não julga faz toda diferença;
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Dá menos trabalho lembrar do medicamento diário se ele estiver sempre à vista, junto com objetos de rotina;
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Quando tenho apoio de amigos que também usam, sinto menos vergonha e me sinto mais motivado;
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As conversas francas sobre sexo e saúde são libertadoras, não motivo de constrangimento.
Tratando do tema sem frases feitas ou receios, aprendi que a adesão cresce onde existe respeito, informação clara e diálogo aberto. Por isso, envio frequentemente artigos, como os da seção dedicada à profilaxia pré-exposição, para quem acompanha comigo.
Quando vale a pena considerar interromper a PrEP?
Muitos têm medo de “ficar dependente” da PrEP ou sentem receio de precisar tomar algo para sempre. A decisão de interromper deve, sempre que possível, ser planejada e orientada junto ao profissional de saúde.
Casos em que pode fazer sentido avaliar a suspensão:
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Redução significativa ou ausência de relações com risco para o HIV, lembrando da importância do acompanhamento laboratorial após suspensão;
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Desejo de engravidar, com avaliação minuciosa sobre riscos e benefícios;
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Intolerância ou efeitos adversos não contornáveis;
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Opção consciente por outra estratégia de prevenção combinada.
O mais importante é nunca suspender sozinho, sem diálogo ou critério.
Onde buscar mais orientações e apoio?
Profissionais treinados em infectologia e centros de saúde são, sem dúvida, espaços de acolhimento e resolução de dúvidas. Recomendo buscar acompanhamento médico especializado, especialmente em mudanças comportamentais ou situações novas no campo da prevenção. A consulta periódica é parte fundamental da segurança, além de permitir o rastreamento regular para outras condições de saúde sexual, conforme detalhado em orientações completas sobre infecção pelo HIV.
Plataformas de informação seguras e livres de preconceitos também fazem toda diferença. Artigos de confiança, profissionais abertos ao diálogo e iniciativas de suporte coletivo ampliam a sensação de pertencimento e combatem o isolamento comum a quem enfrenta dúvidas ou cansaço com o uso da PrEP.
Conclusão
Por todos esses motivos, mantenho a convicção de que a efetividade da PrEP não depende apenas do remédio, mas de uma rede de suporte, informação acessível e respeito à individualidade. O caminho para persistir na prevenção passa pela escuta, pelo diálogo transparente e pelo combate ao preconceito, que ainda cerca a saúde sexual no Brasil. Mantendo a vigilância do cuidado, revisando estratégias sempre que necessário e sabendo onde buscar ajuda, acredito que é possível superar boa parte dos obstáculos, trazendo mais leveza e segurança ao uso da PrEP.
Se você já enfrentou ou enfrenta dúvidas, desafios ou desânimo, saiba que não está só. Falar sobre dificuldades, pedir ajuda e conhecer opções são passos legítimos e bem-vindos nessa jornada pela prevenção do HIV.
Perguntas frequentes sobre a PrEP
O que é a PrEP e como funciona?
A PrEP é uma estratégia de prevenção composta pelo uso regular de medicamentos antes de uma possível exposição ao HIV, evitando a infecção. Ela pode ser feita com comprimidos diários, em uso sob demanda ou, mais recentemente, na forma injetável de longa ação. A PrEP impede a multiplicação do vírus caso aconteça um contato, mantendo a pessoa protegida enquanto usar de forma correta.
Como manter o uso regular da PrEP?
Eu oriento que a PrEP deve estar integrada à rotina, deixar o medicamento sempre visível junto de objetos de uso diário, configurar lembretes no celular, usar aplicativos e, principalmente, não hesitar em buscar apoio quando sentir dificuldade. Conversar com profissionais de saúde e outros usuários pode trazer dicas práticas para não esquecer e lidar melhor com imprevistos.
Quais são os desafios mais comuns da PrEP?
Dificuldade em lembrar de tomar o comprimido diariamente, medo de julgamento social, desconhecimento sobre a importância da regularidade, inseguranças sobre o uso em situações de gravidez ou com outros medicamentos, além da adaptação emocional, são alguns dos desafios que observo. Em grupos específicos, o estigma e a falta de informação também afetam a persistência. Buscar acolhimento e personalizar estratégias de lembrete faz diferença no dia a dia.
O que fazer se esquecer uma dose?
Se você esquecer de tomar um comprimido da PrEP, tome assim que lembrar. Caso já esteja próximo do horário habitual da próxima dose, apenas siga a rotina, sem tomar doses dobradas. Ocasiões isoladas de esquecimento não costumam afetar a proteção, mas a repetição desses episódios pode reduzir a eficácia. Sempre que houver dúvidas frequentes ou esquecimento recorrente, recomendo conversar com o profissional de saúde para ajustar a estratégia.
Onde buscar apoio para continuar a PrEP?
O suporte deve ser buscado em serviços de saúde especializados, clínicas de infectologia, grupos de apoio, ou canais digitais confiáveis. Muitos profissionais oferecem acompanhamento personalizado, esclarecendo dúvidas e apoiando escolhas, inclusive sobre uso de PrEP sob demanda ou alternativas injetáveis. Não hesite em conversar sobre momentos de desânimo: acolhimento e orientação fazem toda diferença para seguir protegido e cuidar bem de sua saúde sexual.





