Se existe uma estratégia que mudou os rumos da prevenção do HIV, foi a chegada da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Mas ela está longe de ser uma solução isolada. Em minhas experiências atendendo e acompanhando pessoas que usam PrEP, percebo que conversar sobre vacina é praticamente obrigatório durante o acompanhamento. Afinal, cuidar da saúde sexual vai além do HIV. Outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como hepatites e HPV, seguem no radar.
Neste artigo, quero compartilhar orientações práticas, atualizadas e claras sobre a vacinação recomendada para pessoas que usam PrEP, com um foco especial em hepatite A, hepatite B e HPV. Vou falar sobre os critérios de elegibilidade, esquemas vacinais mais indicados e o porquê desse cuidado ser parte fundamental da prevenção integral.
O que é PrEP e como ela atua na prevenção?
Antes de entrarmos nos detalhes sobre vacinação, acho importante esclarecer brevemente o que é a PrEP. Vi muita gente se surpreender ao descobrir que uma pílula diária pode evitar o HIV, se tomada corretamente.
A PrEP consiste no uso de medicamentos antirretrovirais por pessoas que não vivem com HIV, mas que têm risco aumentado de exposição ao vírus. O objetivo é inibir uma possível infecção caso haja contato com o HIV. Mas, a PrEP protege apenas contra o HIV. Hepatite A, hepatite B, HPV e outras ISTs continuam transmitidas de outras formas, o que torna a vacinação uma parte indispensável desse pacote de prevenção.
Se você está começando agora, recomendo ler mais sobre as diferentes abordagens de PrEP, como a sob demanda, ou sobre quem pode usar a Profilaxia Pré-Exposição.
Por que falar de vacinação para quem faz uso da PrEP?
Prevenção não se limita ao vírus do HIV.
Dentro dos consultórios, a dúvida aparece sempre: “Preciso mesmo dessas vacinas mesmo tomando PrEP?” A resposta é sim, e por vários motivos. A PrEP faz parte de um cuidado ampliado: quem está sob maior risco para HIV geralmente também tem maior risco para infecções como hepatites e HPV. Vacinar é uma estratégia complementar e segura.
O cenário epidemiológico também mudou. O número de pessoas buscando PrEP aumentou, e, com isso, políticas públicas miraram esse público para campanhas de vacinação específicas. O Ministério da Saúde, recentemente, ampliou a recomendação de vacina contra hepatite A e HPV para quem usa PrEP (notícia da expansão da vacina para hepatite A | anúncio de prioridade para HPV).
Como funciona a vacinação para quem faz uso da PrEP?
A lógica da vacinação nesse contexto é proteger pessoas mais expostas ao risco. Isso envolve não apenas receber as doses, mas também entender para quem são indicadas, como garantir proteção máxima e o que esperar das campanhas atuais.
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Vacina da hepatite A
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Vacina da hepatite B
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Vacina contra o HPV
A cada uma dessas, checo com meus pacientes três pontos fundamentais:
- Se estão dentro do grupo prioritário ou elegível para a vacina
- Se já iniciaram ou completaram todo o esquema vacinal
- Se existe necessidade de reforço ou de iniciar o protocolo
Vacinação contra hepatite A: critérios e recomendações atuais
Entre todas as vacinas, a da hepatite A tem sido comentada nos últimos meses devido a surtos e ao aumento da oferta em populações adultas. Já vi muitos adultos se surpreenderem por, finalmente, serem chamados à sala de vacinação para algo não focado apenas na infância.
Por que pessoas que usam PrEP devem receber a vacina da hepatite A?
A hepatite A é transmitida por via fecal-oral, inclusive em práticas sexuais, e adultos têm maior risco de casos graves.
No início, era uma vacina restrita a crianças. Agora, com os surtos entre adultos jovens e pessoas com práticas sexuais de risco, a indicação se ampliou. Segundo o Ministério da Saúde, usuários de PrEP devem ser vacinados contra hepatite A, com meta de imunizar 80% das pessoas desse grupo.
Quem é elegível para a vacina?
Toda pessoa adulta em uso de PrEP, mesmo que não more em área considerada de surto, pode receber gratuitamente a vacina na rede pública.
Acabo me deparando com perguntas como: “Já tive hepatite A, preciso vacinar?” e “Se tomei só uma dose na infância, preciso completar?”. Em casos de histórico prévio documentado da doença, a vacina pode ser dispensada, mas muita gente não lembra se realmente teve. Costumo orientar a seguir o protocolo de vacinação, especialmente se não há registro.
Qual o esquema vacinal recomendado?
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São duas doses, com intervalo de 6 meses entre elas.
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Não inicie novamente se tomou apenas uma dose; basta completar o esquema.
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Quem já finalizou as duas doses, em qualquer idade, não precisa reforço.
Outro detalhe importante: a vacina da hepatite A é bem tolerada e tem alta resposta, mesmo em adultos. Nos meus acompanhamentos, a queixa mais citada é dor local leve.
Vacina contra hepatite B: um cuidado que nunca ficou para trás
A hepatite B está presente em protocolos de vacinação há décadas. Mesmo assim, são raríssimos os adultos que sabem se realmente concluíram o esquema vacinal na infância. Ou que conhecem a real importância de manter a imunização em dia, principalmente no contexto da PrEP e da exposição sexual.
Por que a vacina da hepatite B é recomendada para quem usa PrEP?
A hepatite B é uma das ISTs mais infecciosas que existem, cinco vezes mais transmissível que o HIV em práticas sexuais desprotegidas. O vírus pode permanecer durante anos sem sintomas e causar sérios danos ao fígado.
Ter o esquema completo contra hepatite B é indispensável para qualquer pessoa com vida sexual ativa, principalmente para usuárias de PrEP.
Quem deve receber a vacina?
Praticamente todo adulto é elegível, salvo raros casos de imunização completa comprovada. O Ministério da Saúde assegura a vacina, gratuita, para toda a população, sem limite de idade. Mas, em especial para quem usa PrEP, reforço a importância de documentar as doses.
A avaliação do esquema prévio é fundamental. Costumo sugerir que, caso haja dúvida sobre vacinação anterior, inicie (ou reinicie) o protocolo do zero. Não existe risco associado a tomar doses ‘a mais’ dessa vacina.
Esquema vacinal padrão
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São três doses: a segunda um mês após a primeira, e a terceira seis meses após a inicial.
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A ordem correta: 0 – 1 mês – 6 meses.
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O esquema pode ser antecipado em situações especiais, mas sempre converse com um profissional antes.
Dúvida bastante comum é se vale a pena pedir exame para saber se a imunização ‘pegou’. Em geral, não são necessários sorologia ou exames após a vacinação na maioria dos adultos saudáveis, exceto grupos com imunossupressão ou situações especiais.
Garantir as três doses é o que faz a real diferença.
Vacina contra o HPV: da adolescência à vida adulta, um novo cenário para quem usa PrEP
O HPV é responsável por cânceres em várias áreas do corpo, incluindo pênis, ânus, colo do útero e garganta, além de verrugas genitais. Quem usa PrEP faz parte do grupo mais exposto a esse vírus. E agora, finalmente, a vacinação foi ampliada.
De acordo com a nova recomendação do Ministério da Saúde, pessoas de 15 a 45 anos em uso de PrEP foram incluídas como grupo prioritário para receber a vacina contra o HPV, gratuitamente.
A vacina contra o HPV agora está disponível gratuitamente para quem usa PrEP entre 15 e 45 anos, ampliando o acesso à prevenção de cânceres associados ao vírus.
Por quê vacinar contra o HPV mesmo já levando uma vida sexual ativa?
Talvez esse seja o ponto que mais gera debate nos consultórios. Ouço sempre: “Já sou adulto, vale a pena vacinar?”. A resposta é sim. Mesmo quem já teve contato prévio com o HPV pode se beneficiar das vacinas disponíveis. Elas não tratam lesões já existentes, mas aumentam a proteção para outros tipos do vírus ainda não contraídos.
Esquema vacinal do HPV para quem usa PrEP
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Pessoas entre 15 e 45 anos recebem três doses: 0 – 2 – 6 meses.
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Adolescentes de 9 a 14 anos seguem com duas doses.
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Quem interrompeu o ciclo não precisa recomeçar: é só completar as doses faltantes, dentro de cinco anos da última.
A vacina é segura, bem tolerada e o principal efeito colateral relatado é dor leve no local da aplicação, semelhante às demais vacinas intramusculares.
Cuidados e dúvidas comuns sobre vacinação na rotina de PrEP
Levar tudo isso para o consultório faz surgir perguntas que são genuínas e até surpreendentes. Abaixo, compartilho algumas situações práticas que acompanho com frequência:
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Quem faz PrEP pode receber todas as vacinas pelo calendário normal. Não há contraindicação entre PrEP e vacinas inativadas (que são as usadas neste contexto).
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As vacinas de hepatite A, hepatite B e HPV não interferem na ação dos medicamentos da PrEP, nem o contrário. Ambas as estratégias podem ser seguidas em paralelo com tranquilidade.
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Não é necessário intervalo entre o início da PrEP e o recebimento das vacinas. Até mesmo quem faz uso da PrEP sob demanda segue as mesmas orientações.
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Quem já completou calendários anteriores, não precisa repetir. Apenas complemente, se faltou alguma dose.
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Pessoas imunossuprimidas, como portadores de HIV com baixa imunidade ou transplantados, podem precisar de esquemas diferenciados.
Tenho por hábito sugerir que cada vacinação seja registrada na carteirinha e no sistema da unidade de saúde, para evitar dúvidas futuras. A Recordação traz clareza e evita retrabalho.
Como e onde buscar as vacinas estando em PrEP?
A maior parte das vacinas mencionadas neste artigo está disponível pelo SUS, especialmente após a inclusão dos usuários de PrEP como grupo prioritário para hepatite A e HPV, além da já garantida para hepatite B. Você pode fazer esse acompanhamento nas unidades básicas de saúde, centros de referência em imunobiológicos especiais (CRIEs) e em algumas clínicas privadas, se desejar.
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Leve seu comprovante de uso de PrEP, quando possível, ou a prescrição médica.
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Informe sobre doses anteriores, mesmo que tomadas há muitos anos.
Mais detalhes sobre serviços e locais estão disponíveis no artigo sobre acompanhamento de PrEP e nas páginas de vacinação recomendada para adultos.
Prevenção integral: a importância de vacinar durante o acompanhamento da PrEP
Conversas sobre PrEP, para mim, sempre levam a um olhar mais abrangente para a saúde sexual. Nunca vejo apenas a pílula. Vejo uma oportunidade única de mudar hábitos e garantir saúde, inclusive por meio da vacinação. Tomar PrEP e manter o calendário vacinal atualizado são formas complementares de se proteger de infecções evitáveis.
Reforço sempre que a prevenção integral não se limita a situações de maior risco. Ela é um investimento em qualidade de vida, saúde pública e em autonomia. Por isso, atentar-se às vacinas de hepatite A, hepatite B e HPV faz parte desse processo. Aproveite todos os encontros na unidade de saúde para conferir sua carteira vacinal, e não hesite em tirar dúvidas!
Quem deseja se aprofundar em estratégias de prevenção pode conferir a categoria de artigos sobre Profilaxia Pré-Exposição.
Conclusão
A vacinação de pessoas que usam PrEP marca uma nova fase de prevenção, mais abrangente e voltada para o cuidado total em saúde sexual. Os esquemas para hepatite A (duas doses), hepatite B (três doses) e HPV (três doses em adultos de 15 a 45 anos) refletem o reconhecimento de que manter-se protegido é um direito, uma forma de autonomia e uma responsabilidade compartilhada nos coletivos sociais.
Meu conselho: mantenha seu calendário vacinal em dia e faça da temporada de PrEP também o seu passaporte para uma vida mais saudável e protegida. A cada dose, você faz mais por si e por todos ao seu redor.
Perguntas frequentes sobre vacinação e PrEP
Quais vacinas são recomendadas para quem usa PrEP?
As principais vacinas recomendadas para quem utiliza PrEP são hepatite A, hepatite B e HPV. Além delas, outras vacinas como gripe e meningite podem ser discutidas com o médico, de acordo com o perfil de risco individual. O fundamental é garantir que os esquemas indicados estejam completos, prevenindo complicações e ampliando as defesas contra doenças evitáveis.
Onde posso tomar as vacinas necessárias?
Normalmente, as vacinas indicadas para usuários de PrEP estão disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do SUS. Em algumas situações, especialmente quando há contraindicações ou necessidade de imunobiológicos especiais, os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs) também ofertam essas vacinas. É aconselhável levar um comprovante de uso de PrEP. Clínicas privadas também podem aplicar essas vacinas, porém pode haver custos envolvidos.
PrEP interfere na eficácia das vacinas?
Não existe interação negativa conhecida entre os medicamentos usados na PrEP e as vacinas recomendadas. Os antirretrovirais da PrEP não reduzem a resposta imunológica, e as vacinas não afetam a eficácia da PrEP. Portanto, ambos podem ser utilizados de maneira simultânea sem prejuízo para a saúde.
Quais vacinas são gratuitas pelo SUS?
No contexto da PrEP, as vacinas de hepatite A, hepatite B e HPV são gratuitas na rede pública para o público do programa. Inclusive, pessoas que já iniciaram esquemas anteriores, mas ainda não completaram todas as doses, também podem finalizar gratuitamente pelo SUS, mediante orientação e apresentação da necessidade.
Quando devo renovar minhas vacinas usando PrEP?
A maioria das vacinas recomendadas para quem usa PrEP não exige reforço rotineiro após o esquema completo, exceto em casos de imunossupressão documentada. Caso haja dúvida sobre esquemas antigos, basta completar as doses faltantes sem a necessidade de recomeçar do zero. Sempre consulte um profissional ao iniciar a PrEP – essa é uma ótima oportunidade para atualizar toda sua carteira vacinal.





