A pergunta mais comum de quem tem herpes — e de quem transa com quem tem — é: “se não estou em crise, posso transmitir?” A resposta é sim. E não é um detalhe: a maioria das transmissões de herpes genital acontece sem nenhuma ferida visível. Vou explicar por quê, quanto e o que reduz.
O que é eliminação assintomática
O vírus do herpes fica dormente no gânglio nervoso e, de tempos em tempos, “acorda” e desce até a pele ou mucosa — sem produzir bolha, sem dor, sem sinal nenhum. Nesses períodos, o vírus está na superfície e pode passar para o parceiro. Isso se chama eliminação (ou excreção) assintomática.
Os estudos que fizeram swab diário em pessoas com HSV-2 mostraram que o vírus é detectável na pele genital em cerca de 10 a 20% dos dias no primeiro ano após a infecção, caindo para algo em torno de 5 a 10% dos dias depois. Ou seja: entre uma crise e outra, há dias “invisíveis” de transmissão.
Quando a eliminação é maior
- No primeiro ano depois de pegar o vírus.
- Nos dias em torno das crises — a semana antes e a semana depois.
- Durante o pródromo (formigamento, coceira) — aqui o vírus já está ativo mesmo sem ferida.
- Em quem tem HSV-2 genital (mais do que HSV-1 genital).
- Em quem tem muitas crises por ano.
Quanto isso pesa na prática
Num casal em que um tem HSV-2 e o outro não, sem nenhuma proteção, o risco de transmissão fica em torno de 5 a 10% ao ano — e a maior parte disso acontece em dias sem lesão. Não é “transou uma vez e pegou”: é um risco acumulado, principalmente pela eliminação assintomática.
O que reduz
- Supressão diária (valaciclovir 500 mg a 1 g por dia): reduz a eliminação assintomática em cerca de 70–80% e a transmissão para o parceiro em cerca de 50%. É a medida mais eficaz.
- Camisinha: reduz mais uns 30%, mas o vírus pode estar em áreas que ela não cobre (base do pênis, saco, vulva, períneo, nádegas).
- Evitar sexo no pródromo e na crise: nesses dias a carga viral é muito maior.
- Saber o próprio tipo: HSV-1 genital elimina muito menos que HSV-2.
Nada zera. A combinação das três primeiras deixa o risco anual perto de 1–2%.
E o parceiro que “nunca teve nada”?
A maior parte das pessoas com HSV-2 não sabe que tem — porque pegou de alguém sem sintoma, e ela mesma nunca teve crise reconhecível. É a eliminação assintomática que sustenta a epidemia silenciosa. Por isso, num casal discordante, vale a sorologia dos dois: às vezes o “negativo” já é positivo.
Como é comigo
Sou infectologista em São Paulo (Itaim Bibi), com atendimento online para todo o Brasil. Explicar a eliminação assintomática é o que mais muda a vida de quem tem herpes — porque tira a culpa (“não estava em crise, não fiz nada errado”) e coloca a proteção no lugar certo (supressão, não só camisinha). Atendo pessoas e casais, sem julgamento.
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Perguntas frequentes
Transmiti herpes sem estar em crise — fiz algo errado? Não. É assim que a maioria das transmissões acontece, e a maioria das pessoas nem sabe que tem o vírus.
Herpes labial também transmite sem ferida? Sim. HSV-1 na boca elimina sem sintoma e pode ir para o genital do parceiro no sexo oral.
A supressão zera a transmissão? Não. Reduz pela metade. Combinada com camisinha e sem sexo na crise, o risco fica baixo.
Quantos dias por ano eu transmito? Em média, o vírus está na pele em 5 a 10% dos dias fora do primeiro ano — mas isso varia muito de pessoa para pessoa.
Vale a pena o parceiro negativo fazer exame? Sim. Sorologia tipo-específica nos dois define se há mesmo o que proteger.
Sobre o autor
Dr. Klinger Faico — Infectologista. CRM-SP 203431 · RQE 104115. Professor Adjunto da UNIFESP/Escola Paulista de Medicina. Título de especialista em Infectologia Hospitalar pela SBI. Página do tema: Herpes genital. Consultório: Rua Joaquim Floriano, 820 – Itaim Bibi, São Paulo. Telemedicina para todo o Brasil.


