Seu parceiro contou que tem herpes genital. Você não tem (ou acha que não tem). E ficou a pergunta: dá para continuar transando com essa pessoa sem pegar?
Dá. Casais em que um tem herpes e o outro não — os chamados casais discordantes — são extremamente comuns, e a maioria vive a vida inteira assim. Este texto é para você que está do lado “negativo”: o que é risco real, o que reduz, e o que não vale a pena o pânico.
Primeiro: tem certeza de que você não tem?
Boa parte de quem “não tem herpes” nunca fez exame. Como a maioria das infecções por HSV-2 não dá sintoma, é possível que você já tenha o vírus. Antes de montar toda uma estratégia de proteção, faça a sorologia tipo-específica (IgG para HSV-1 e HSV-2).
- Se você já tem o mesmo tipo do seu parceiro: não há o que proteger. Não existe reinfecção pelo mesmo tipo.
- Se você tem HSV-1 (o da boca, que a maioria tem) e ele tem HSV-2: você tem uma proteção parcial, mas ainda pode pegar HSV-2.
- Se você não tem nenhum: aí vale a estratégia abaixo.
O risco real, em números
Sem nenhuma proteção, num casal em que o homem tem HSV-2 e a mulher não, o risco de transmissão é da ordem de 8 a 10% ao ano. De mulher para homem, cerca de 4%. Entre homens, os dados são menos precisos, mas a lógica é a mesma. Ou seja: não é “transou uma vez, pegou”. É um risco acumulado, e cada medida abaixo derruba um pedaço dele.
O que reduz a transmissão
- Supressão diária do parceiro (valaciclovir 500 mg a 1 g por dia): reduz a transmissão em cerca de 50%. É a medida mais eficaz, e é dele, não sua.
- Camisinha: reduz mais uns 30%, e protege as áreas que cobre. Herpes pode estar em áreas que a camisinha não cobre (períneo, base do pênis, vulva).
- Nada de sexo durante a crise — nem quando começa a “formigar”, que é o sinal de que o vírus está ativo (pródromo). Esse é o período de maior transmissão.
- Combinando as três: o risco anual cai para perto de 1–2%. Baixo. Não zero.
O que não funciona
- Lavar depois do sexo. O vírus não se lava.
- Só transar “quando não tem ferida”. A maior parte da transmissão acontece sem ferida visível, pelo que se chama de eliminação assintomática.
- Tomar aciclovir você, o parceiro negativo. Não existe “PrEP para herpes” com evidência; a supressão funciona em quem tem o vírus.
E se eu pegar?
Vai acontecer com alguns casais, mesmo fazendo tudo. Herpes genital é uma condição de pele recorrente e controlável — chata, não grave (fora de gestação e de imunossupressão). A maioria das pessoas tem poucas crises por ano, cada vez mais leves, e a supressão resolve o resto. Não é o fim da vida sexual de ninguém, como o próprio parceiro pode te confirmar.
O que eu faço com os dois na consulta
Sorologia dos dois, para saber exatamente onde cada um está. Ajuste da supressão de quem tem o vírus. E uma conversa clara sobre o que o casal quer: máximo de proteção, ou proteção razoável com mais espontaneidade. As duas são escolhas legítimas — o que importa é decidir com número na mesa, não com medo.
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E se a dúvida for de quem passou para quem, tem texto próprio: Herpes genital no relacionamento: quem passou para quem?.
Perguntas frequentes
Posso pegar herpes genital pelo sexo oral? Sim. Se o seu parceiro tem herpes labial (HSV-1), o sexo oral pode levar o vírus para o seu genital — é hoje uma das causas mais comuns de herpes genital novo.
Beijo transmite herpes genital? Beijo transmite herpes labial (HSV-1). HSV-2 genital pelo beijo é muito raro.
Se meu parceiro toma supressão, posso dispensar a camisinha? O risco fica baixo, mas não zero. É uma decisão do casal com o número na mão — não uma regra.
Existe vacina contra herpes? Não, até agora. Há pesquisas, mas nada disponível.
Como contar para um parceiro novo que eu tenho herpes? Esse é o outro lado da moeda, e tem texto próprio: Como contar que tenho herpes para um parceiro novo.
Leia também
- O que é herpes: tipos, sintomas e diferenças
- Como se pega herpes: todas as formas de transmissão
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Sobre o autor
Dr. Klinger Faico — Infectologista. CRM-SP 203431 · RQE 104115. Professor Adjunto da UNIFESP/Escola Paulista de Medicina. Título de especialista em Infectologia Hospitalar pela SBI. Página do tema: Herpes genital. Consultório: Rua Joaquim Floriano, 820 – Itaim Bibi, São Paulo. Telemedicina para todo o Brasil.


